domingo, 30 de setembro de 2012

Come-me

"Em geral, desfrutamos 'prazeres da carne' com a condição de serem insípidos."

Georges Bataille



"Oxalá me beije com beijos da sua boca - pede a esposa de O Cântico dos Cânticos - porque são suas carícias mais doces que o vinho." A boca e o amor, a fome e o sexo; toda a urgência do instinto, o animal escondido, essa voracidade silenciosa disfarçada pelas regras, a honradez do canibal.

O sexo não consegue ocultar o que ainda encerra de depredação. Os amantes devoram-se com a vista, com os lábios, e comer-se-iam de boa vontade, como num regresso à Idade de Ouro: comer e ser comido, reintegrar-se no outro, saboreá-lo. No festim que é a paixão erótica, o mais sublime, o mais brutal, misturam-se irremediavelmente como voracidade e eucaristia como diz a Bíblia:

Venha o meu amado ao seu jardim
e saboreie os seus frutos deliciosos

Há, sem dúvida, uma doçura do amor, um precioso alimento no corpo do outro. Comer-se quem se ama é o impossível do desejo, a sua fronteira interior, a sua meta e o seu extravio. Um canibalismo com boas maneiras, é o amor e, talvez por isso - pela obscura raiz que os une - comer e amar podem substituir-se tantas vezes, como irmãos gémeos, na ficção e na vida.



Comer com o coração, amar com a boca cheia: a paixão envolve uma forma de gula, uma fome que não admite saciedade, como o demonstra o protagonista de Sexus nesta esfomeada exigência:

Sou insaciável. Comeria cabelo, cera suja, coágulos de sangue, qualquer coisa e tudo o que fosse teu. Apresenta-me ao teu pai com as suas embrulhadas, com os seus cavalos de corrida, as suas entradas grátis para a ópera; comê-los-ei a todos, devorá-los-ei vivos. Onde está a cadeira em que te sentas, onde está o teu pente favorito, a tua escova de dentes, a tua lima das unhas? Tira-os para que os possa devorar de uma dentada. Dizes que tens uma irmã mais bela que tu. Mostra-ma..., quero arrancar-lhe a carne dos ossos.

Mas o gosto, tal como foi dito, pode ser o substituto de um amor desprezado. No extremo oposto dessa fúria carnívora que aprisiona Miller, o jovem Werther - apaixonado pela mulher de outro - encontra consolo para o seu desespero entre a candura das ervilhas, a suavidade da manteiga, e o alvoroço manso das couves:

Quando ao despontar o dia me ponho a caminho para ir ao meu refúgio de Wahleim e no próprio jardim da casa onde me hospedo colho eu mesmo as ervilhas e sento-me para lhes tirar a casca ao mesmo tempo que leio Homero; quando pego num tacho da cozinha, corto a manteiga, ponho os meus legumes ao lume, tapo-os e fico por perto para mexê-los de vez em quando, compreendo então perfeitamente que os orgulhosos amantes de Penélope pudessem matar, esquartejar e assar eles próprios os bois e porcos. Não há nada que me encha de ideias mais pacíficas e verdadeiras que estes traços de costumes patriarcais, e, graças aos céus, posso utilizá-los, sem afectação, no meu modo de vida.
Como me considero feliz pelo meu coração ser capaz de sentir o inocente e simples regozijo do homem que serve à sua mesa a couve por ele próprio cultivada e que, além do prazer de comê-la, tem outro maior recordando naquele instante os dias bonitos que passou cultivando-a, a alegre manhã em que a plantou, as serenas tardes em que a regou, e o prazer com que viu medrar de dia para dia!

Thomas Barbey, Stripped to the Core

Do feroz apetite de Miller à dieta - quem sabe se casta ou perversa - que lhe impõe a Werther o seu amor censurável, a escrita erótica encontra no gosto, nos saberes, em todos os deleites do paladar, uma mesa sortida de metáforas e uma fonte copiosa onde nutrir a sua inspiração. A esse recreio nos entregamos no exemplo que se segue:

Querida Nuria:
És uma pequena porca e deliciosa. Deveria talvez repreender-te pela tua última carta, mas não penso fazê-lo: põem-me louco as pequenas porcas como tu.
Tens razão, essa era a carta que eu desejava, aquela que não me atrevia a pedir-te. Mas pões mel nos meus lábios, os lábios no teu mel quente e turvo e depois tiras-me o prémio. Não sejas impaciente. Deixa-me demorar-me no teu sexo: mal pude saboreá-lo, e a minha boca está ansiosa por essa polpa dulcíssima.
Não me disseste a que sabe.
Há sexos ácidos, intensos, provocantes, como a polpa do marmelo, há sexos agridoces como tenras cerejas; há sexos que transpiram deliciosas caldas, embriagadores sucos de arandos e amoras.
A que sabe o teu, diz. Ou melhor, deixa-me descobri-lo. Acaricia-o um pouco, assim, por cima da roupa, muito suavemente. Não te importes que olhe. Noto o pulsar nas têmporas, a garganta que arde, e sigo com fixidez hipnótica o vaivém dos teus dedos. Sim, adoro olhar-te: a cada movimento da tua mão atravessa-me uma farpa de fogo. Porquê parar agora. Não há leis do desejo, não há distâncias e a tua carta fez-me desejar-te cegamente, furiosamente.
Estou ao teu lado.
Enterrei a cabeça na folhagem escura do teu sexo, e aí quero perder-me. Quero prender na minha boca essa brasa pura e carnuda, essa rosa de carne, pulsante, mínima, que fere de longe. Aceito-a entre os lábios com esmero e deixo que a minha língua a vá acariciando, muito devagar ao princípio, com mais brio depois. Às vezes, quando sinto mais profundos os teus gemidos, detenho-me um instante para beijar as dobras já tíbias, o suporte da gruta que penetra no escuro.
Não me sacia o teu fruto mais saboroso. Não me basta ouvir os teus gemidos. Quero ouvir as palavras mais sujas manchando os teus lábios. Sou um cachorro no cio lambendo-te a cona, um animal que anseia a tua vulva estremecida, as tuas coxas oscilantes, as tuas pernas como esbeltas lianas de brancura. O teu sexo é já uma torrente que flui na minha boca, uma brasa muito doce arrancada do dia, o teu sexo é uma gema ofuscante e terrível, que arrasta a agitação crescente dos astros.

Christine Finley

Mas o gosto admite muitas variedades, e no excesso que contém a paixão erótica não faltam entusiastas do beijo negro, que não tremem perante nada. "Amor é o lugar do excremento", sugeria Keats e há outras bocas mais literalmente sujas de amor. Falamos da coprofagia (de cópros, excremento; e fagein, comer) que não é exatamente uma devoção insípida.

Do prazer que pode encerrar-se numa ementa tão aromática e particular, dá-nos conta o texto de Apollinaire:

- Caga já! - gritava Mony.
Imediatamente apareceu uma pontinha de merda, bicuda e insignificante, que mostrou a cabeça e se retirou imediatamente para a sua caverna. Reapareceu passado pouco tempo, seguida lenta e majestosamente pelo resto do salsichão, que constituía um dos mais belos cagalhões que um intestino jamais produziu.
A merda saía untuosa e ininterruptamente, tecida com cuidado como uma corda de um navio. Oscilava com graça entre as belas nádegas que se separavam cada vez mais. Depressa se balançou com maior brio. O cu dilatou-se ainda mais, agitou-se um pouco e a merda caíu, quente e fumegante toda ela, nas mãos de Mony que se estendiam para a receber. Então ele gritou: "Não te mexas!", e, agachando-se, lambeu-lhe cuidadosamente o orifício do cu, amassando o cagalhão com as suas mãos. De imediato o esmagou com voluptuosidade e besuntou todo o corpo com ele.

Conforme podemos ver, cada qual pode escolher à la carte os ingredientes da sua paixão: a couve quaresmal do jovem Werther, os sumarentos petiscos de Miller, ou a receita do príncipe Vibescu que faria as delícias de um paladar mais rupestre...


in Cartas Eróticas, de Clara Obligado e Angel Zapata

sábado, 29 de setembro de 2012

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Tango

"Quiero música, maestro, se lo pido por favor, que esta noche estoy de Tangos!"


 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Nádegas

Entre as duas nádegas
o pávido sulco
tem aroma de áfricas 

e de uvas de outubro

Dirias que fora
um silvo de morte 

a penetrar toda
a nocturna flora
até hoje intacta
que ainda aí tinhas

Respira
Não fales
Murmura
Não grites

Que travo
de amoras
Que túnel escuro
Que paz no que sofres
por mais uns minutos

o pescoço vergas 

submissa e frágil
tal o de uma
égua 
que vai beber
água
mas encontra a
lua 


E junto da cama
a rosa viúva
com lágrimas brancas
já pede os meus dedos
sacudido apoio
para a viuvez
em que a deixo hoje

Muito mais a
norte 
os queixumes
calas
E nem gemes
Gozas
enquanto te invade
o suco da vara 

vertido no sulco
Vê como foi fácil
Respira mais
fundo.


David Mourão-Ferreira





domingo, 23 de setembro de 2012

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Menstruação

Serena fonte, antiga,
onde tudo é suave.
E o líquido desliza
como tranquila ave.

Que espadas a cortaram
que lábios a sorveram
que dedos a tatearam
ou corpos repudiaram,

não sei. Nem mesmo a fonte
quanto desejo exangue
provocou no viandante.

Agora é vermelha, quente,
e suja, mas é a ponte
para que o Amor rebente.

Liberto Cruz


Felicia Olin, Being Woman

domingo, 16 de setembro de 2012

Antecipação

Entreabro as minhas
coxas
no início dos teus beijos

imagino as tuas
pernas
guiadas pelo desejo

oiço o teu
gemido
calado pelos meus dentes

imagino a tua boca
rasgada
sobre o meu ventre


Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo


sábado, 15 de setembro de 2012

Masturbação I

Eis o centro do corpo
o nosso centro
onde os dedos escorregam devagar

e logo onde nesse centro
os dedos esfregam correm
e voltam sem cessar

e então são aí os meus
já os teus dedos

e são meus os dedos
já a tua boca

a ir sorvendo os lábios dessa boca
que manipulo conduzo
pensando em tua boca

Ardência funda planta em movimento
que trepa a fenda fundidas já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde

E todo o corpo é esse movimento
em torno em volta
no centro desses lábios

que a febre toma engrossa
e vai cedendo, a pouco e pouco
nos dedos da palma


Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo


Gustav Klimt

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A rainha careca

De cabeleira farta
De rígidas ombreiras
De elegante beca
Ula era casta
Porque de passarinha
Era careca.
À noite alisava
O monte lisinho
Co’a lupa procurava
Um tênue fiozinho
Que há tempos avistara.
Ó céus! Exclamava.
Por que me fizeram
Tão farta de cabelos
Tão careca nos meios?
E chorava.
Um dia...
Passou pelo reino
Um biscate peludo
Vendendo venenos.
(Uma gota aguda
Pode ser remédio
Pra uma passarinha
De rainha.)
Convocado ao palácio
Ula fez com que entrasse
No seu quarto.
Não tema, cavalheiro,
Disse-lhe a rainha
Quero apenas pentelhos
Pra minha passarinha.
Ó Senhora! O biscate exclamou.
É pra agora!
E arrancou do próprio peito
Os pelos
E com saliva de ósculos
Colou-os
Concomitante penetrando-lhe os meios.
UI!UI!UI! gemeu Ula
De felicidade.
Cabeluda ou não
Rainha ou prostituta
Hei de ficar contigo
A vida toda!
Evidente que aos poucos
Despregou-se o tufo todo.
Mas isso o que importa?
Feliz, mui contentinha
A Rainha Ula já não chora.

Moral da estória:
se o problema é relevante,
apela pro primeiro passante.


Hilda Hilst (1930-2004)

Howard Schatz


terça-feira, 4 de setembro de 2012

A cópula

Depois de lhe beijar meticulosamente
o cu, que é uma pimenta, a boceta, que é um doce,
o moço exibe à moça a bagagem que trouxe:
colhões e membro, um membro enorme e turgescente.

Ela toma-o na boca e morde-o. Incontinenti,
Não pode ele conter-se, e, de um jacto, esporrou-se.
Não desarmou porém. Antes, mais rijo, alteou-se
E fodeu-a. Ela geme, ela peida, ela sente

Que vai morrer: - "Eu morro! Ai, não queres que eu morra?!"
Grita para o rapaz que aceso como um diabo,
arde em cio e tesão na amorosa gangorra

E titilando-a nos mamilos e no rabo
(que depois irá ter sua ração de porra),
lhe enfia cona adentro o mangalho até o cabo.


Manuel Bandeira (1886-1968)



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...