segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Decameron: O Frade e a Regra

Um frade viu uma jovem lindíssima, filha, talvez , de algum dos lavradores da região . A jovem apanhava algumas ervas nos campos. Assim que o frade a viu, sentiu-se acometido pelo interesse carnal . Por esta razão, acercou-se mais da jovem e travou conversa com ela. E tanto saltou de uma palavra a outra, que terminou por firmar um acordo com ela . Por esse acordo firmado, levou-a à sua cela , sem que ninguém o percebesse. Instigado por um desejo excessivo, brincou com ela , e de um modo menos cauteloso do que seria conveniente .

Sucedeu que o abade do mosteiro, deixando a sua cama , onde dormira, e passando, sem fazer ruído , em frente à cela do tal frade, escutou o barulho que ele e a moça faziam. Para identificar mais precisamente as vozes o abade aproximou-se da porta da cela. Notou sem nenhuma dúvida, que havia uma mulher lá dentro. Sentiu-se tentado a ordenar que se abrisse a porta. Entretanto, pouco depois, julgou que seria mais conveniente agir de outro modo, em semelhante caso. Retornou ao seu quarto e aguardou que o frade deixasse a cela.

Apesar de ocupado com a jovem, e ainda que gozasse de enorme prazer, o frade não deixou de desconfiar de algo; a certa altura , tivera a impressão de ouvir um arrastar de pés , pela ala dos quartos de dormir. Por essa razão, olhou através do pequeno orifício e viu que o abade ali estava à escuta. Entendeu, perfeitamente, que o abade devia saber que a jovem estava na sua companhia. Reconhecendo que, por essa razão, seria punido com grave castigo, mostrou-se profundamente aborrecido . Contudo, sem deixar que a moça percebesse a sua contrariedade, buscou na sua mente algo que o auxiliasse a escapulir daquela enrascada. Finalmente, ocorreu-lhe uma artimanha, que calhava bem a esse fim. Então, fingindo já ter ficado o suficiente em companhia da jovem, disse-lhe:

– Quero achar uma maneira de sairdes daqui de dentro sem que vos vejam; assim sendo, ficai aqui mesmo, calmamente, até que eu regresse.

Deixou a cela e trancou a porta com a chave. Encaminhou-se diretamente para a cela do abade, dando-lhe a chave, conforme a tradição, quando se ausentava do mosteiro. Disse, então, com expressão tranquila e amiga:

– Senhor abade, não pude, esta manhã, ordenar que trouxessem ao mosteiro toda a lenha que pude arranjar; por esta razão, com sua permissão, desejo ir ao bosque, para mandar que a tragam.

O abade, desejando informar-se por completo em relação à falta praticada pelo frade, ficou satisfeito com o seu modo de agir. Recebeu a chave e deu ao frade permissão para ir ao bosque. Ficou convencido, como se percebe, de que o frade nada sabia do facto de ele, abade , ter ficado à escuta da porta de sua própria cela .

Bastou o frade retirar-se, o abade procurou resolver o que seria mais certo fazer, primeiramente: abrir-lhe a cela, na presença de todos os frades do mosteiro, para que ninguém pudesse apresentar razões de queixa contra ele, no momento em que pela sua autoridade castigasse o frade pecador, ou escutar, primeiro, da jovem mesma, a sós, como se passara o caso. Cogitando, entretanto, que a jovem pudesse ser esposa ou filha de algum homem que ele não gostaria de fazer passar por essa vergonha, decidiu que o melhor seria tratar, primeiramente, de saber quem era aquela moça para depois resolver o que faria.

Silenciosamente, dirigiu-se para a cela do frade; abriu a porta; entrou e fechou-a por dentro, naturalmente. Vendo entrar o abade, a moça ficou desconcertada. Cheia de vergonha e de medo, pôs-se a chorar. O senhor abade olhou-a por muito tempo ; vendo-a tão bela e sensual , sentiu inesperadamente , ainda que um tanto idoso , os apelos da carne . Eram apelos não menos ardentes do que aqueles que sentiram o jovem frade. E a si mesmo começou a dizer:

– Enfim, que razão há para que eu deixe de desfrutar um prazer, quando posso desfrutá-lo, se, por outro lado , os aborrecimentos e os tédios estão sempre preparados para que eu os prove, queira ou não? Aí está uma bela moça, sem que nenhuma pessoa, no mundo, saiba disso. Se posso fazer com que me proporcione os prazeres pelos quais anseio, não existe nenhuma razão para que eu não a induza. Quem é que virá, a saber, disto? Ninguém nunca o saberá! Pecado oculto é pecado meio perdoado. Um acaso destes quiçá jamais venha a se verificar de novo. Julgo ser conduta acertada colher o bem que Deus Nosso Senhor nos envia.

Assim reflectindo, e tendo modificado inteiramente o propósito pelo qual fora até ali, acercou-se mais da moça . Com voz melíflua, pôs-se a confortá-la e a pedir, com instância , que não chorasse. Palavra puxa palavra, até que ele chegou ao ponto de poder evidenciar à moça o seu desejo . A jovem, que não era de ferro nem de diamante, atendeu, muito cómoda e amavelmente aos prazeres do abade. O padre abraçou-a, beijou-a muitas vezes, seguidamente, atirou-se com ela para a cama do frade. Seja por enorme consideração, ou ao venerável peso de sua própria dignidade, ou pela idade tenra da jovem – seja, então por recear causar-lhe mal, pelo seu excessivo peso –, o abade não se pôs sobre o peito da moça. Antes, colocou-a sobre o seu próprio peito. E, durante muito tempo, entreteve-se com ela.

Giacinto Gaudenzi

O frade, que havia fingido ir ao bosque, mas que, na verdade, escondera-se na ala dos dormitórios, viu quando o abade entrou ena sua cela. Assim, completamente tranquilo, compreendeu que seu plano dera resultado, ao perceber que o abade trancara a porta por dentro. Deixando o seu esconderijo, silenciosamente, foi até o orifício da fechadura, através do qual viu e ouviu o que o abade fez e disse.

Quando pareceu ao abade que já se demorara o bastante em companhia da jovem, deixou-a trancada na cela, e retornou ao seu quarto. Passado algum tempo, ouvindo que o frade chegava, e pensando que ele regressasse do bosque, decidiu censurá-lo e mandar que o prendessem no cárcere; assim procedendo, pretendia ficar sozinho na posse da presa conquistada. Ordenou, portanto, que o frade viesse à sua presença. Com o rosto severo e com graves palavras, censurou-o, mandando que fosse conduzido ao cárcere. O frade, sem nenhuma hesitação, retrucou:

– Senhor abade, não estou, ainda, há tempo bastante na Ordem de São Bento para conhecer todas as singularidades de sua disciplina. O senhor não me mostrara ainda que os frades precisam fazer-se mortificar pelas mulheres, assim como devem fazê-lo com jejuns e vigílias; agora, contudo, que o senhor acaba de mo demonstrar, prometo-lhe, se me conceder o perdão por esta vez, que nunca mais pecarei desta forma; ao contrário, procederei sempre como vi o senhor fazer.

O abade, como homem astuto que era, reconheceu logo que o frade não só conseguira saber a seu respeito muito além do que o suposto, mas ainda ver o quanto ele fizera. Por esta razão, sentiu remorsos pela sua própria culpa; e ficou vexado de aplicar ao frade o castigo que ele, tanto quanto o seu subordinado, merecera. Deu-lhe o perdão, mas impôs-lhe silêncio sobre tudo o que vira. Depois, levaram ambos a moça para fora do mosteiro; e, mais tarde, como é fácil de presumir, inúmeras vezes a fizeram retornar ali.

Boccacio, Decameron  (Quarta Novela da Primeira Jornada)

sábado, 26 de fevereiro de 2011

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Super-homem

Arthur Tress, Superman Fantasy, 1978

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Dixie Barton


Vintage Erotic Stripper Dixie Barton: "RED-HEADED RIOT" 1940's

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Romantismo Erótico

Peter Fendi (1796-1842 ) foi um pintor, retratista, litógrafo e gravador austríaco, figura proeminente do período Biedermeier. Ganhou notoriedade com os retratos que fez da aristocracia. Em Viena, em 1910, 40 litografias eróticas foram publicadas e atribuídas a Fendi, sendo, no entanto, discutível esta atribuição. De qualquer modo, aqui ficam algumas.














terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Beleza Americana

Gil Elvgren (1914 –1980) foi um pintor e ilustrador americano. Elvgren foi um dos mais importantes ilustradores de pin-ups do século XX, retratando nos seus trabalhos o ideal americano da beleza feminina.











sábado, 12 de fevereiro de 2011

A Ilha dos Amores



Ali quer que as aquáticas donzelas
Esperem os fortíssimos barões,
Todas as que têm título de belas,
Glória dos olhos, dor dos corações,
Com danças e coreias, porque nelas
Influirá secretas afeições,
Para com mais vontade trabalharem
De contentar, a quem se afeiçoaram.

Tal manha buscou já, para que aquele
Que de Anquises pariu, bem recebido
Fosse no campo que a bovina pele
Tomou de espaço, por subtil partido.
Seu filho vai buscar, porque só nele
Tem todo seu poder, fero Cupido,
Que assim como naquela empresa antiga
Ajudou já, nestoutra a ajude e siga.

No carro ajunta as aves que na vida
Vão da morte as exéquias celebrando,
E aquelas em que já foi convertida
Perístera, as boninas apanhando.
Em derredor da Deusa já partida,
No ar lascivos beijos se vão dando.
Ela, por onde passa, o ar e o vento
Sereno faz, com brando movimento.

(...)

"Ali, com mil refrescos e manjares,
Com vinhos odoríferos e rosas,
Em cristalinos paços singulares
Formosos leitos, e elas mais formosas;
Enfim, com mil deleites não vulgares,
Os esperem as Ninfas amorosas,
De amor feridas, para lhes entregarem
Quanto delas os olhos cobiçarem.

(...)
Já todo o belo coro se aparelha
Das Nereidas, e junto caminhava
Em coreias gentis, usança velha,
Para a ilha, a que Vênus as guiava.
Ali a formosa Deusa lhe aconselha
O que ela fez mil vezes, quando amava.
Elas, que vão do doce amor vencidas,
Estão a seu conselho oferecidas.

Cortando vão as naus a larga via
Do mar ingente para a pátria amada,
Desejando prover-se de água fria,
Para a grande viagem prolongada,
Quando juntas, com súbita alegria,
Houveram vista da ilha namorada,
Rompendo pelo céu a mãe formosa
De Menónio, suave e deleitosa.

De longe a Ilha viram fresca e bela,
Que Vênus pelas ondas lha levava
(Bem como o vento leva branca vela)
Para onde a forte armada se enxergava;
Que, por que não passassem, sem que nela
Tomassem porto, como desejava,
Para onde as naus navegam a movia
A Acidália, que tudo enfim podia.

(...)

Três formosos outeiros se mostravam
Erguidos com soberba graciosa,
Que de gramíneo esmalte se adornavam..
Na formosa ilha alegre e deleitosa;
Claras fontes o límpidas manavam
Do cume, que a verdura tem viçosa;
Por entre pedras alvas se deriva
A sonorosa Ninfa fugitiva.

Num vale ameno, que os outeiros fende,
Vinham as claras águas ajuntar-se,
Onde uma mesa fazem, que se estende
Tão bela quanto pode imaginar-se;
Arvoredo gentil sobre ela pende,
Como que pronto está para afeitar-se,
Vendo-se no cristal resplandecente,
Que em si o está pintando propriamente.

Mil árvores estão ao céu subindo,
Com pomos odoríferos e belos:
A laranjeira tem no fruto lindo
A cor que tinha Dafne nos cabelos;
Encosta-se no chão, que está caindo,
A cidreira com os pesos amarelos;
Os formosos limões ali, cheirando,
Estão virgíneas tetas imitando.

As árvores agrestes que os outeiros
Têm com frondente coma enobrecidos,
Alemos são de Alcides, e os loureiros
Do louro Deus amados e queridos;
Mirtos de Citereia, com os pinheiros
De Cibele, por outro amor vencidos;
Está apontando o agudo cipariso
Para onde é posto o etéreo paraíso.

Os dons que dá Pomona, ali Natura
Produz diferentes nos sabores,
Sem ter necessidade de cultura,
Que sem ela se dão muito melhores:
As cerejas purpúreas na pintura,
As amoras, que o nome têm de amores,
O pomo que da pátria Pérsia veio,
Melhor tornado no terreno alheio.

Abre a romã, mostrando a rubicunda
Cor, com que tu, rubi, teu preço perdes;
Entre os braços do ulmeiro está a jocunda
Vide, com uns cachos roxos e outros verdes;
E vós, se na vossa árvore fecunda,
Peras piramidais, viver quiserdes,
Entregai-vos ao dano, que, com os bicos,
Em vós fazem os pássaros inicos.

(...)

Nesta frescura tal desembarcavam
Já das naus os segundos Argonautas,
Onde pela floresta se deixavam
Andar as belas Deusas, como incautas.
Algumas doces cítaras tocavam,
Algumas harpas e sonoras flautas,
Outras com os arcos de ouro se fingiam
Seguir os animais, que não seguiam.

Assim lhe aconselhara a mestra experta;
Que andassem pelos campos espalhadas;
Que, vista dos barões a presa incerta,
Se fizessem primeiro desejadas.
Algumas, que na forma descoberta
Do belo corpo estavam confiadas,
Posta a artificiosa formosura,
Nuas lavar-se deixam na água pura,

Mas os fortes mancebos, que na praia
Punham os pés, de terra cobiçosos,
Que não há nenhum deles que não saia
De acharem caça agreste desejosos,
Não cuidam que, sem laço ou redes, caia
Caça naqueles montes deleitosos,
Tão suave, doméstica e benigna,
Qual ferida lha tinha já Ericina.

Alguns, que em espingardas e nas bestas,
Para ferir os cervos se fiavam,
Pelos sombrios matos e florestas
Determinadamente se lançavam:
Outros, nas sombras, que de as altas sestas
Defendem a verdura, passeavam
Ao longo da água que, suave e queda,
Por alvas pedras corre à praia leda.

Começam de enxergar subitamente
Por entre verdes ramos várias cores,
Cores de quem a vista julga e sente
Que não eram das rosas ou das flores,
Mas da lã fina e seda diferente,
Que mais incita a força dos amores,
De que se vestem as humanas rosas,
Fazendo-se por arte mais formosas.

Dá Veloso espantado um grande grito:
"Senhores, caça estranha, disse, é esta!
Se ainda dura o Gentio antigo rito,
A Deusas é sagrada esta floresta.
Mais descobrimos do que humano espírito
Desejou nunca; e bem se manifesta
Que são grandes as coisas e excelentes,
Que o mundo encobre aos homens imprudentes.

"Sigamos estas Deusas, e vejamos
Se fantásticas são, se verdadeiras."
Isto dito, velozes mais que gamos,
Se lançam a correr pelas ribeiras.
Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos,
Mas, mais industriosas que ligeiras,
Pouco e pouco sorrindo e gritos dando,
Se deixam ir dos galgos alcançando.

De uma os cabelos de ouro o vento leva
Correndo, e de outra as fraldas delicadas;
Acende-se o desejo, que se ceva
Nas alvas carnes súbito mostradas;
Uma de indústria cai, e já releva,
Com mostras mais macias que indignadas,
Que sobre ela, empecendo, também caia
Quem a seguiu pela arenosa praia.

Com as Deusas despidas, que se lavam:
Elas começam súbito a gritar,
Como que assalto tal não esperavam.
Umas, fingindo menos estimar
A vergonha que a força, se lançavam
Nuas por entre o mato, aos olhos dando
O que às mãos cobiçosas vão negando.

Outra, como acudindo mais depressa
A vergonha da Deusa caçadora,
Esconde o corpo n'água; outra se apressa
Por tomar os vestidos, que tem fora.
Tal dos mancebos há, que se arremessa,
Vestido assim e calçado (que, coa mora
De se despir, há medo que ainda tarde)
A matar na água o fogo que nele arde.

Qual cão de caçador, sagaz e ardido,
Usado a tomar na água a ave ferida,
Vendo no rosto o férreo cano erguido
Para a garcenha ou pata conhecida,
Antes que soe o estouro, mal sofrido
Salta n'água, e da presa não duvida,
Nadando vai e latindo: assim o mancebo
Remete à que não era irmã de Febo.

Leonardo, soldado bem disposto,
Manhoso, cavaleiro e namorado,
A quem amor não dera um só desgosto,
Mas sempre fora dele maltratado,
E tinha já por firme pressuposto
Ser com amores mal afortunado,
Porém não que perdesse a esperança
De ainda poder seu fado ter mudança,

Quis aqui sua ventura, que corria
Após Efire, exemplo de beleza,
Que mais caro que as outras dar queria
O que deu para dar-se a natureza.
Já cansado correndo lhe dizia:
"Ó formosura indigna de aspereza,
Pois desta vida te concedo a palma,
Espera um corpo de quem levas a alma.

"Todas de correr cansam, Ninfa pura,
Rendendo-se à vontade do inimigo,
Tu só de mi só foges na espessura?
Quem te disse que eu era o que te sigo?
Se to tem dito já aquela ventura,
Que em toda a parte sempre anda comigo,
Ó não na creias, porque eu, quando a cria,
Mil vezes cada hora me mentia.

"Não canses, que me cansas: e se queres
Fugir-me, por que não possa tocar-te,
Minha ventura é tal que, ainda que esperes,
Ela fará que não possa alcançar-te.
Espora; quero ver, se tu quiseres,
Que subtil modo busca de escapar-te,
E notarás, no fim deste sucesso,
Tra la spica e la man, qual muro è messo.

"Ó não me fujas! Assim nunca o breve
Tempo fuja de tua formosura!
Que, só com refrear o passo leve,
Vencerás da fortuna a força dura.
Que Imperador, que exército se atreve
A quebrantar a fúria da ventura,
Que, em quanto desejei, me vai seguindo,
O que tu só farás não me fugindo!

"Pões-te da parte da desdita minha?
Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.
Levas-me um coração, que livre tinha?
Solta-me, e correrás mais levemente.
Não te carrega essa alma tão mesquinha,
Que nesses fios de ouro reluzente
Atada levas? Ou, depois de presa,
Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?

"Nesta esperança só te vou seguindo:
Que, ou tu não sofrerás o peso dela,
Ou na virtude de teu gesto lindo
Lhe mudarás a triste e dura estrela:
E se se lhe mudar, não vás fugindo,
Que Amor te ferirá, gentil donzela,
E tu me esperarás, se Amor te fere:
E se me esperas, não há mais que espere."

Já não fugia a bela Ninfa, tanto
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas que dizia.
Volvendo o rosto já sereno e santo,
Toda banhada em riso e alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.

Ó que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã, e na sesta,
Que Vênus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.

Desta arte enfim conformes já as formosas
Ninfas com os seus amados navegantes,
Os ornam de capelas deleitosas
De louro, e de ouro, e flores abundantes.
As mãos alvas lhes davam como esposas;
Com palavras formais e estipulantes
Se prometem eterna companhia
Em vida e morte, de honra e alegria.

Uma delas maior, a quem se humilha
Todo o coro das Ninfas, e obedece,
Que dizem ser de Celo e Vesta filha,
O que no gesto belo se parece,
Enchendo a terra e o mar de maravilha,
O Capitão ilustre, que o merece,
Recebe ali com pompa honesta e régia,
Mostrando-se senhora grande e egrégia.

Que, depois de lhe ter dito quem era,
Com um alto exórdio, de alta graça ornado,
Dando-lhe a entender que ali viera
Por alta influição do imóvel fado,
Para lhe descobrir da unida esfera
Da terra imensa, e mar não navegado,
Os segredos, por alta profecia,
O que esta sua nação só merecia,

Tomando-o pela mão, o leva e guia
Para o cume dum monte alto e divino,
No qual uma rica fábrica se erguia
De cristal toda, e de ouro puro e fino.
A maior parte aqui passam do dia
Em doces jogos e em prazer contino:
Ela nos paços logra seus amores,
As outras pelas sombras entre as flores.

Assim a formosa e a forte companhia
O dia quase todo estão passando,
Numa alma, doce, incógnita alegria,
Os trabalhos tão longos compensando.
Porque dos feitos grandes, da ousadia
Forte e famosa, o mundo está guardando
O prémio lá no fim, bem merecido,
Com fama grande e nome alto e subido.

Que as Ninfas do Oceano tão formosas,
Tethys, e a ilha angélica pintada,
Outra coisa não é que as deleitosas
Honras que a vida fazem sublimada.
Aquelas proeminências gloriosas,
Os triunfos, a fronte coroada
De palma e louro, a glória e maravilha:
Estes são os deleites desta ilha.

Os Lusíadas, Canto IX

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Foxtrot Perverso (2)


A Perverse Foxtrot: High Hatters - Sing You Sinners, 1930

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Já que o coito - diz Morgado


Achille Deveria


Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! - uma vez.
E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

Natália Correia

Este poema foi escrito em 1982 e foi dedicado ao deputado João Morgado do CDS que num debate sobre a lei do aborto dissera:
"O acto sexual só é justificável tendo por objectivo a procriação."

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Palavrões

Ttexto de Miguel Esteves Cardoso, dito por Miguel Guilherme.


domingo, 6 de fevereiro de 2011

As Metamorfoses do Vampiro

(...)
Da mulher, no entanto, com a sua boca de morango,
Meneando-se como uma serpente sobre brasas,
Seus seios excitando-se no ferro do seu espartilho,
Corria um fio de palavras com odor acre a sexo feminino:
«Repara como meus lábios estão húmidos. Sei levar
Um homem, no fundo de um leito, ao mais antigo desvario.

Meus seios triunfantes secam todas as lágrimas,
E mesmo dos velhos tiro risos de crianças.
Nua, e sem véus para que me olhe, sou
Nesse momento lua e sol, céu e estrelas! Firmamento!
Tu és perito, mas eu tenho a ciência expedita da volúpia,
Quando te afago nos meus braços terríveis
Ou te dou a mordiscar meu busto,
Tímida e libertina, frágil e robusta,
Nesta cama onde te dás até ao grito,
Os anjos impotentes trocariam de alma para trocar contigo!»

Baudelaire


Louise Brooks

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Putas em Portugal e no Mundo


 SIC Radical - Cabaret da Coxa - 2002

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Água

Meus senhores eu sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.

Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da raspa
tira o cheiro a bacalhau rasca
que bebe o homem, que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão.

Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho

Meus senhores aqui está a água
que rega rosas e manjericos
que lava o bidé, que lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber às fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um broche.

Bocage


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