quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Decameron

John William Waterhouse, Decameron

O Decameron  (vocábulo com origem no grego antigo: deca, "dez", hemeron, "dias", "jornadas") é uma colecção de cem novelas escritas por Giovanni Boccaccio entre 1348 e 1353. A obra é considerada um marco literário na ruptura entre a moral medieval, em que se valorizava o amor espiritual, e o início do realismo, sendo a natureza que dita a conduta do homem. 

O Decameron marca o período de transição cultural vivido na Europa no fim da Idade Média, após o advento da Peste Negra — é neste período de terror que a narrativa se passa. Dez jovens (sete moças e três rapazes) fogem das cidades tomadas pela pandemia que dizimava impiedosamente o continente europeu e recolhem-se numa casa de campo. Serão estes dez jovens que darão voz às cem novelas, reveladoras das idiossincrasias humanas.

Decameron: Os Enganos da Noite


(...) Ainda há pouco tempo, havia no campo arrabáldico do Mugnone um homenzinho em cuja casa os viajantes encontravam de comer e de beber por algum dinheiro. Era um homem pobre e a sua casa pequena. Apesar disso, sendo a necessidade grande, arranjava-se para nela acomodar não direi qualquer pessoa, mas, pelo menos, um cliente conhecido. Tinha uma bonita mulher e dois filhos: uma rapariga de quinze ou dezasseis anos, já boa para casar e muito atraente, e outro muito pequenino, de menos de um ano, ainda de mama.
   A rapariga tinha chamado sobre si a atenção de um gracioso e simpático fidalgo da cidade, que, no entusiasmo do seu desejo, ia com frequência ao Mugnone. Orgulhosa por inspirar uma paixão assim a um tal homem, a jovem esforçava-se por o reter na sua rede com olhares langorosos. A verdade, porém, é que ela própria se deixou prender. Em suma, um mútuo consentimento teria já várias vezes coroado esse amor se Pinuccio - era esse o nome do rapaz - não receasse para ambos a reprovação geral. No entanto, o amor era cada dia maior, e ele desejou vê-la de novo. Mas como conseguir hospedar-se em casa do pai? Pinuccio conhecia a disposição da casa e, uma vez lá dentro, gozaria, apesar da proximidade dos outros, a presença tão desejada da jovem. Logo que arquitectou o seu plano, quis experimentá-lo imediatamente.
   Para esse efeito fez-se acompanhar de um tal Adriano, seu amigo fiel e confidente dos seus amores. Um belo dia, já tarde, os jovens montaram em dois cavalos de tiro, carregaram-nos com duas malas, talvez cheias de palha, e saíram de Florença, seguindo o caminho dos estudantes. Já era noite quando as montadas chegaram ao Mugnone. Então, deram de rédeas aos cavalos, como se viessem da Romagna, dirigiram-se para as casas e bateram à porta do homenzinho. Muito amável com a clientela, este apressou-se a abrir.   - Como vês, tens de nos dar dormida esta noite - disse-lhe Pinuccio. Pensávamos chegar a tempo a Florença, mas calculámos mal as horas e só conseguimos chegar até tua casa.  
   - Bem sabes, Pinuccio - disse-lhe o homem -, que mau alojamento eu tenho para pessoas da vossa qualidade. Mas a verdade é que estão aqui e não têm tempo de ir para outro sítio. Alojo-os pois de boa vontade e como for possível.
   Os dois rapazes apearam-se, entraram no albergue, começaram por cuidar dos cavalos e depois cearam com o hospedeiro, das provisões de que se haviam cuidadosamente munido. O dono da casa só dispunha de um quarto exíguo e de três camas pequenas, que arrumara o melhor que pudera. Mas como estavam encostadas a uma das paredes e a terceira fora colocada ao longo da parede oposta, não havia muito espaço para andar à vontade.
   O homem fez a cama menos má para os dois companheiros e estes deitaram-se. Pouco depois, julgando-os adormecidos, deu uma das camas restantes à filha e deitou-se na outra com a mulher. Esta colocou, junto ao lugar onde ia dormir, o berço da criança. 
   Passado um momento, Pinuccio, que tinha observado tudo, levantou-se, pé ante pé, foi direito à cama onde a sua bela repousava e deitou-se a seu lado. Apesar do receio que sentia, esta fez-lhe um bom acolhimento e ambos ficaram a saborear o prazer que era o seu maior desejo.


Enquanto Pinuccio estava nos braços da sua amada, uma gata fez cair, por acaso, um objecto qualquer. A mãe ouviu o ruído e receando qualquer outra coisa, levantou-se e, às escuras, dirigiu-se à casa de onde lhe parecia ter vindo o som. Inocentemente, Adriano, que uma necessidade natural obrigara precisamente a levantar-se, saiu, tropeçou no berço que a dona da casa ali colocara e, como não podia passar sem o afastar, pegou-lhe, mudou-o de lugar e colocou-o junto à sua cama. Satisfeita a sua necessidade, voltou, e meteu-se na cama sem pensar mais no berço. 
   Após algumas investigações a mulher achou que o objecto caído não tinha grande importância. Não se preocupou com acender a luz para ver melhor, ralhou à gata, voltou ao quarto e dirigiu-se, tacteando, para a cama onde o marido dormia. Mas nada de berço. "Pobre de mim, que bonita coisa eu ia fazer! Deus do céu, ia direita à cama dos hóspedes!" Avançou alguns passos, encontrou o berço e, encontrando a cama que estava junta dele, deitou-se ao lado de Adriano que tomou pelo marido. Adriano, que ainda não voltara a ter sono, foi sensível à sua chegada. Sem dizer palavra, e com grande prazer da dona da casa, soube por mais de uma vez, provar-lhe o seu ardor. 

  
   Assim iam as coisas, quando Pinuccio receou que o sono o surpreendesse ao lado da amante. Como já tinha tido o prazer que tão avidamente desejava, soltou-se dos braços da jovem para voltar à sua cama. Chegou lá, mas, encontrando o berço, julgou tratar-se da cama do dono da casa. Avançou pois alguns passos e deitou-se ao lado do homem que acordou nesse momento. Pinuccio, que se julgava ao lado de Adriano, disse-lhe: 
   - Juro-te que nunca tive nos braços nada tão bom como a Niccolosa. Por Deus! Deu-me o maior prazer que um homem jamais teve de uma mulher. E sabes, desde que te deixei, estive mais de seis vezes no paraíso! 
   Ao ouvir tais palavras, tão pouco a seu gosto, o dono do albergue pensou: "Que diabo veio aqui fazer este imbecil?" Depois, a emoção fê-lo perder toda a prudência. 
   - Pinuccio - disse - o que me fizeste não tem classificação. E nem quero saber por que razão assim me ridicularizaste. Mas, com seiscentos diabos, hás-de pagar-mas! 
   Pinuccio não era um modelo de paciência. Ao reparar no engano, em vez de procurar remediar as coisas com elegância, respondeu: 
   - Que queres tu fazer-me pagar? Que poderias tu fazer-me? 
Entretanto, a senhora, que se julgava ao lado do marido, disse a Adriano: 
   - Deus do céu! Ouve os viajantes, estão ambos a discutir. Adriano pôs-se a rir: 
   - Deixa lá. Diabos os levem. Beberam demais ontem à noite. 
   A mulher, que esperava ouvir os clamores do marido, reconheceu a voz de Adriano. Compreendeu imediatamente o que lhe acontecera e com quem estava. Prudentemente e sem dizer palavra, levantou-se logo, pegou no berço da criança, e, apesar da profunda escuridão que reinava no quarto, teve o sangue frio suficiente de o levar para junto da cama da filha, onde se deitou. Então, como se o barulho que o marido fazia tivesse acabado de a acordar, interpelou-o e perguntou-lhe qual a razão da sua disputa com Pinuccio. Respondeu o homem: 
   - Não ouves o que ele pretende ter feito com a Niccolosa? 
   - Mente, juro-te - disse a mulher. - Ele não esteve deitado com a Niccolosa. Eu é que me deitei aqui e não tenho podido pregar olho. E tu és parvo, acreditando no que esse diz. Beberam tanto antes de se deitar que sonham a noite inteira com coisas dessas. Andam por todo o lado, perdem o controlo de si próprios e julgam ter realizado proezas. É pena que não tenham quebrado o pescoço. Mas o que está aí a fazer o Pinuccio? Porque não está na cama dele? 
   Adriano compreendeu que a mulher tinha a sabedoria de dissimular a sua vergonha e a da filha. 
   - Pinuccio - disse-lhe ele então - tenho-te dito centenas de vezes que não corras de cá para lá. Esse maldito costume de te levantares enquanto sonhas, depois de contar como se fossem verdadeiras todas as patranhas com que sonhaste, ainda acaba um dia por te sair caro. Volta para aqui. E que Deus não te dê uma boa noite! 
   Ao ouvir o que a mulher e Adriano diziam, o dono do albergue começou a acreditar que Pinuccio era na verdade sonâmbulo. Pegou-lhe então pelos ombros, sacudiu-o e gritou-lhe: 
   - Acorda, Pinuccio, volta para a tua cama. Mas Pinuccio, que compreendera o jogo de Adriano e da mãe de Niccolasa, pôs-se a fazer de sonâmbulo e a dizer parvoíces, que faziam o homem rir à gargalhada. Por fim, fingiu acordar e dirigiu-se a Adriano: 
   - Já é dia, para me estares a acordar? 
   Representando sempre, Pinuccio abriu os olhos pesados de sono, mas acabou por sair da cama e ir deitar-se junto de Adriano. 
   Quando amanheceu, o homem levantou-se e começou a rir de Pinuccio, troçando dele e dos seus sonhos. Brincadeira para aqui, brincadeira para ali, os dois jovens arranjaram-se assim como às suas montadas. Carregaram as bagagens, beberam com o dono do albergue, e a cavalo! 
   Voltaram a Florença tão divertidos com as peripécias da aventura como alegres com o seu desfecho. Daí a algum tempo, Pinuccio descobriu melhor maneira de se encontrar com Niccolosa. Esta última jurara à mãe, por todos os seus deuses, que Pinuccio tinha sonhado. E a boa senhora, ao recordar as suas justas com Adriano, acabava por pensar que fora ela a única pessoa a estar acordada.

"Decameron" (Oitava Jornada - Quarta Novela)"- tradução de Urbano Tavares Rodrigues



Desenhos de Giacinto Gaudenzi

Decameron: O Véu da Abadessa

(...) Sabei pois que havia na Lombardia um mosteiro cuja santa piedade assegurara a sua reputação. Isabetta, uma das religiosas que lá se encontravam então, era uma jovem de sangue nobre e de grande beleza. Um dos seus parentes foi um dia visitá-la à grade do parlatório. Acompanhava-o um rapaz de boa aparência, por quem Isabetta se apaixonou. A grande beleza da freira e o desejo que brilhava nos seus olhos inspiraram o mesmo ardor ao rapaz, e ambos sofreram durante algum tempo em silêncio essa paixão. Por fim, o jovem descobriu maneira de ver a freira secretamente e isso foi-lhes tão agradável que acharam maneira de repetir tais encontros.
    A intriga continuava assim. Uma religiosa, porém, surpreendeu uma noite o apaixonado no momento em que este se despedia da amante e participou a sua descoberta a outras freiras. A primeira ideia que lhes ocorreu foi comunicarem o que se passava à superiora, Usimbalda, que era, na opinião de todos quantos a conheciam, uma boa e santa criatura. Pensando melhor, acharam, porém, que seria preferível fazer com que a abadessa a surpreendesse com o amante e assim ela não pudesse negar o facto. Calaram-se pois e combinaram umas com as outras vigiarem-na alternadamente, a fim de a apanharem em flagrante delito. Isabetta, sem desconfiar de coisa alguma, mandou certa noite chamar o amante, facto de que as freiras que a vigiavam logo se deram conta. Quando o momento lhes pareceu propício, dividiram-se em dois grupos. Umas ficaram a vigiar a porta da cela, enquanto as outras correram ao quarto da abadessa e bateram à porta. Quando a superiora respondeu, as freiras insistiram:
   - Depressa, madre, depressa. Descobrimos um homem na cela de Isabetta.

Giacinto Gaudenzi
   Ora, nessa noite, a abadessa estava precisamente acompanhada por um padre que muitas vezes dava entrada no seu quarto metido dentro de uma arca. Ouvindo todo aquele barulho e receando que as freiras, com o entusiasmo, empurrassem a porta, saltou da cama e vestiu-se o melhor que pôde mesmo às escuras. Julgando, porém, que pegava no véu que as religiosas usam na fronte e a que chamam psaltério, pegou nas ceroulas do padre. A sua precipitação era tal que, sem dar por isso, as ajeitou na cabeça em vez do psaltério e saiu, batendo com a porta e perguntando:   - Onde está essa maldita de Deus? E seguiu as freiras que tanto ardiam em desejos de apanharem Isabetta em falta, que nem repararam que a abadessa trazia aquele estranho véu. Usimbalda chegou à porta da cela de Isabetta e, com a ajuda das irmãs, arrombou a porta. Lá dentro, as freiras encontraram os dois amantes deitados e abraçados. Estupefactos e sem saberem que atitude tomar, a freira e o jovem não se mexiam. Isabetta foi então agarrada pelas outras e conduzida ao capítulo. O rapaz, tendo ficado só, vestiu-se, e pôs-se à espera dos acontecimentos, decidido a vingar-se de todas as que lhe passassem por perto, se alguma fizesse mal a Isabetta, e depois de levar a amante para longe dali. 
A abadessa tomou o seu lugar no capítulo, em presença de todas as freiras que não olhavam senão para a culpada, e começou  por dizer a Isabetta as piores injúrias que jamais foram ditas a uma mulher, acusando-a de desacreditar a santidade, a honra e o bom nome do mosteiro, se tal escândalo viesse a transpirar lá fora. Às ameaças seguiram-se as injúrias. envergonhada e cheia de medo, a jovem parecia consciente da sua culpa e o seu silêncio começava a inspirar piedade às companheiras. A superiora continuava a falar, quando Isabetta levantou por fim os olhos e viu o véu da abadessa e os cordões que caíam de um e de outro lado. Percebeu logo do que se tratava e disse-lhe tranquilamente: - Madre Superiora, Deus vos tenha na sua Santa Guarda! Atai o vosso toucado e depois então dizei o que quereis. 
A abadessa, que não a entendia, disse: - Que toucado, miserável? Tens o topete de gracejar num momento destes? Achas que o teu crime dá vontade de rir? - Madre - disse Isabetta uma vez mais - peço-vos que ateis o vosso toucado. Depois dizei então o que quereis.    Várias freiras olharam então para a abadessa, e a boa senhora, que também levara as mãos à cabeça, compreendeu logo o motivo por que Isabetta falava assim. Reconhecendo o seu erro e vendo que as presentes o haviam também reconhecido, compreendeu que não podia mais ocultá-lo. Mudou então de tom e acabou por dizer que ninguém podia defender-se dos aguilhões da carne. Concluiu dizendo que cada qual devia ocultar o melhor possível o seu prazer, como até aí se tinha feito. A abadessa mandou pois soltar Isabetta e voltou para o leito, onde o padre estava à sua espera. Isabetta fez o mesmo com o amante, que ali voltou muitas vezes, apesar dos ciúmes que isso provocava. As freiras que não tinham apaixonados esforçaram-se logo por arranjar, o melhor que puderam, as suas intrigas secretas.

Decameron, Nona Jornada - Segunda Novela  (tradução de Urbano Tavares Rodrigues)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Bettie Page


Bettie Page (22 de abril de 1923 – 11 de dezembro de 2008) é considerada por muitos como a rainha das Pinups, famosa na década de 1950 pelas suas fotos eróticas. De brilhantes cabelos negros e franja, Bettie Page foi uma das primeiras Playmates, aparecendo na edição de Janeiro de 1955 da Playboy.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Elevador


Jean François Gaté

[...] Às vezes pasmo, Melanie, com a exactidão com que estes momentos me vêm à memória. Estou a ver o elevador, é como se tivesse sido ontem. O portão de grades trabalhadas em cobre, o guarda-vento de vidros foscos com umas flores lavradas que pareciam jarros do oriente. E os espelhos aos lados? E o banquinho de veludo na parede do fundo, tão virginal, tão romântico? Oh, era uma cestinha de arcanjos, aquele elevador, todo em ouros e brancos esmaltados. Mas o inesquecível era a máscara do diabo que havia no tecto a olhar cá para baixo! Assustava e enternecia. Tinha uns corninhos de fauno, saídos do conjunto da figura que era em relevo dourado e com uma mascarilha vermelha. Tantas minúcias, eu bem digo…Não te parece estranho?
E todavia todo se passou fora do tempo e do espaço! Tudo, ma chèrie, Tudo! Ainda mal tínhamos fechado a porta já o Gaston-Philippe se colava a mim a percorrer-me desvairadamente com as mãos. Contornava-me, cingia-me com um braço e procurava-me as coxas e as nádegas por baixo da roupa. Eu própria levantei o vestido, colando-me mais a ele, e imagina a surpresa que o tomou quando sentiu nos dedos a verdade do meu ventre!
Sim, minha Melanie, eu estava nua por baixo do vestido! Não me perguntes porquê, mas no bar, por um impulso inexplicável, tinha ido ao toilette com esse propósito. Um presságio? Só sei que estava feliz com o meu instinto, felicíssima. O assombro e o deslumbramento do Gaston-Philippe por aquela surpresa não tiveram limites e eu sentia isso através da sua mão que era grata e ardente. E que hábil, que mão! Que imaginativa e que extensa, Melanie! Penetrava com tais segredos que me levava para lá da ascensão do próprio elevador e logo me esgotava e me fazia afundar à medida que voltávamos a descer.
Impossível calcular as vezes que percorremos para baixo e para cima aqueles cinco andares. Uma verdadeira escalada do paraíso! Subíamos e mergulhávamos, e tornávamos a subir…a nossa viagem parecia não ter fim, pois o Gaston-Philippe era daqueles amantes afortunados nos quais l’amour fou é servido por um talento prático ajustado às circunstâncias e, assim, manobrava o manípulo do elevador no momento exacto em que ele se ia a deter.
Mas entoncededor ainda foi que dei por ele de joelhos, abraçado às minhas pernas e abrindo-me toda ao mesmo tempo, nem sei, com o rosto mergulhado nas minhas coxas! Então senti-me trespassada por algo muito vivo e voraz, por uma espessura revolvente e arguta que me descobria por dentro e me dilatava, sugando-me. E eram mais coisas, minha querida, os dentes percorrendo os pelos e os músculos , o calor do rosto contra o meu ventre, as mãos explorando-me as nádegas, tanta coisa!
Eu, de pé, uma perna em cima do ombro dele, via-me ao espelho e não me reconhecia. Esquecida, esquecida, liberta pelo espaço…»

 A Balada da Praia dos Cães, de José Cardoso Pires

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Pompeia

A descoberta das perdidas cidades romanas de Herculano e Pompeia, feita a partir de 1748, fez reviver o interesse nos frescos romanos que tinham influenciado a geração de Rafael e Giulio Romano. Ao mesmo tempo, foi também um considerável choque cultural.


Pela primeira vez, a Antiguidade era visível na sua totalidade do dia-a-dia. A grande quantidade de representações eróticas descoberta nas duas cidades soterradas colocou a classe culta da época perante um dilema - tornado ainda maior porque grande parte da sua educação se baseava no estudo dos textos clássicos.


Como poderiam estas figuras ser absorvidas pela imagem idealizada do mundo clássico passada de geração em geração pelos professores, que tinham cuidadosamente desviado os pupilos das passagens eróticas que se encontravam em autores clássicos admirados, tais como Catulo e Ovídio?


A solução encontrada foi que estas imagens fossem postas de parte e estivessem à disposição apenas dos mais maduros e sofisticados. As trivialidades sexuais da vida da Antiguidade foram escondidas no tristemente famoso Museu Secreto em Nápoles, para serem vistas mediante pagamento de uma taxa e somente por membros do sexo masculino.



Alguns teóricos modernos sugeriram que a moderna noção de "pornografia" obteve as suas raízes nestas descobertas de Pompeia, e especificamente na procura de lidar com elas e de neutralizá-las sem negar inteiramente a sua existência.


domingo, 12 de setembro de 2010

Basiorum Liber

No início do século XVI, , Jean Everaerts, colhendo inspiração no latino Catulo, compôs todo um livro a que se deu, após a sua morte, o sugestivo nome de Basiorum Liber ("O Livro dos beijos"), onde cada poema elegíaco representa, intencionalmente, um beijo, uma modalidade de beijar, uma reflexão diferente sobre o tocar mais ou menos apaixonado, mais ou menos violento de dois lábios ardentes de paixão. Apresentam-se aqui dois desses poemas.


Enquanto por aqui e por ali em teus braços delicados
me apertas com força, e sobre mim deixas cair

todo o teu pescoço, o teu seio e o teu olhar sedutor,
penduras-te, ó Neera, nos meus ombros;
e ajustando aos meus lábios os lábios teus
atacas-me com uma mordidela, gemes quando te mordo
e a tua língua trémula fazes vibrar de uma ponta à outra,
e a minha língua, entre queixumes, de um lado e de outro sugas,
com o suave bafo do teu suspiro,
meigo, macio, húmido,
e o alento, ó Neera, da minha pobre vida,
quando sorves o meu bafo fraco,
ardente, torrado num excesso de fervura,
torrado no fogo de um coração desfalecido.
Esquivas-te depois às minhas chamas, ó Neera,
com o sopro de um peito que consome o meu fogo.
Ó brisa deliciosa da minha chama!
Aí afirmo: Amor é o deus dos deuses,
e deus algum é superior ao Amor.
Se há contudo alguém maior que o Amor,
tu, só tu, ó Neera, és maior.

Porque me ofertas esse teu labiozinho em fogo?
Não quero, não quero agora beijar-te, dura Neera,
mais dura do que a dureza do mármore.
Tanto caso farei eu desses teus beijos
inofensivos, ó minha soberba,
que com a verga enrijecida, em riste,
acabe por perfurar as minhas vestes e as tuas
e, enfurecido por um vão desejo,
me consuma, infeliz, com o meu pau em fogo?
Para onde foges? Espera, não me negues
esses olhos, nem esses lábios em fogo!
Agora sim quero beijar-te, minha ternura,
mais terna que a penugem de um ganso.

Neptuno, Tétis e o Amor, de Rommen Verbeke, séc.XVI





















O Beijo


A obra de Auguste Rodin, "O Beijo" (1887) foi inspirada na paixão avassaladora de Francesca da Polenta por  Paolo, irmão mais novo do seu esposo, Giovanni Malatesta, narrada por Dante no Canto V da Divina Comédia, círculo II, dedicado aos luxuriosos. Dizia Francesca:

Quando lemos do desejado riso
a ser beijado por tão grande amante,
e este, que de mim seja indiviso,
a boca me beijou todo anelante.

Francesca conta como a leitura de um romance de cavalaria, no momento em que Guinivera e Lançarote se beijavam, despertou em si um desejo avassalador que a levou ao adultério e, por consequência, ao Inferno.

No entanto, se olharmos mais atentamente para a escultura de Rodin, verificamos que Francesca e Paolo não chegam a tocar os lábios. Talvez por isso a obra, de estilo neoclássico, seja ainda mais erótica, pois sugere a união de dois corpos nus sem falsos moralismos nem pudores. O beijo que não chega a consumar-se, leva-os à condenação eterna mas também lhes dá a imortalidade.





sábado, 11 de setembro de 2010

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A Bunda



A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora - murmura a bunda - esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda
redunda.

Carlos Drummond de Andrade

Ralph Gibson

No corpo feminino, esse retiro
- a doce bunda - é ainda o que prefiro.
A ela, meu mais íntimo suspiro,
pois tanto mais a apalpo quanto a miro.

Que tanto mais a quero, se me firo
em unhas protestantes, e respiro
a brisa dos planetas, no seu giro
lento, violento... Então, se ponho e tiro

a mão em concha - a mão, sábio papiro,
iluminando o gozo, qual lampiro,
ou se, dessedentado, já me estiro,

me penso, me restauro, me confiro,
o sentimento da morte eis que o adquiro:
de rola, a bunda torna-se vampiro.

Carlos Drummond de Andrade


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Henry e June

Henry e June é um filme de 1990, um drama erótico e biográfico, dirigido por Philip Kaufman. É uma adaptação cinematográfica da obra Henry, June and me, de Anaïs Nin.



Mathilde



excerto de Delta of Venus - Mathilde, de Anais Nin:

"How do I look to him?" she asked herself. She got up and brought a long mirror toward the window. She stood it on the floor against a chair. Then she sat down in front of it on the rug and, facing it, slowly opened her legs. The sight was enchanting. The skin was flawless, the vulva, roseate and full. She thought it was like the gum plant leaf with its secret milk that the pressure of the finger could bring out, the odorous moisture that came like the moisture of the sea shells. So was Venus born of the sea with this little kernel of salty honey in her, which only caresses could bring out of the hidden recesses of her body.

Mathilde wondered if she could bring it out of its mysterious core. With her fingers she opened the two little lips of the vulva, and she began stroking it with catlike softness. Back and forth she stroked it as Martinez did with his more nervous dark fingers. She remembered his dark fingers on her skin, such a contrast to her skin, and the thickness of them seeming to promise to hurt the skin rather than arouse pleasure by their touch. How delicately he touched it, she thought, how he held the vulva between his fingers, as if he were touching velvet. She held it now as he did, in her forefinger and thumb. With the other free hand she continued the caresses. She felt the same dissolving feeling that she felt under Martinez's fingers. From somewhere a salty liquid was coming, covering the wings of her sex; between these it now shone.

Then Mathilde wanted to know how she looked when Martinez told her to turn over. She lay on her left side and exposed her ass to the mirror. She could see her sex now from another side. She moved as she moved for Martinez. She saw her own hand appear over the little hill formed by the ass, which she began to stroke. Her other hand went between her legs and showed in the mirror from behind. This hand stroked her sex back and forth. Then a forefinger was inserted and she began to rub against it. Now she was taken with the desire to be taken from both sides, and she inserted her other forefinger into the asshole. Now when she moved forwards she felt her finger in the front, and when she lurched back she felt the other finger, as she sometimes felt Martinez and a friend when they both caressed her at once. The approach of the orgasm excited her, she went into convulsive gestures, as if to pull away the ultimate fruit from a branch, pulling, pulling at the branch to bring down everything into a wild orgasm, which came while she watched herself in the mirror, seeing the hands move, the honey shining, the whole sex and ass shining wet between the legs.

(...)

Then he went out and walked leisurely to Mathilde's place. He found the door partially open. He walked in with his catlike steps, which made no sound on the carpet. He found Mathilde lying on the floor in front of a mirror. She was on her hands and knees and looking between her legs at the mirror.

He said, "Don't move, Mathilde. That's a pose I love."
He crouched over her like a giant cat, and his penis went into her. He gave Mathilde what he would not give his mistress. His weight finally made her sink down and sprawl on the rug. He raised her ass with his two hands and fell on her again and again. His penis seemed made of hot iron. It was long and narrow, and he moved it in all directions, and leaped inside of her with an agility she had never known. He quickened his gestures even more and said hoarsely, "Come now, come now, come, I tell you. Give it all to me, now. Give it to me. Like you never did before. Give yourself now." At these words she began to fling herself against him, furiously, and the orgasm came like lightning striking them together.



Postais antigos retirados daqui

Anaïs Nin (Vida - Parte IV)



Os conflitos internos de Anais Nin eram muitos e complexos. Assim, levada pela sua vontade de se conhecer melhor e de resolver alguns dos seus traumas, a escritora começou a interessar-se pela psicanálise,consultando frequentemente psicanalistas proeminentes, como Rene Allendy e Otto Rank, aproveitando as terapias para os seduzir.

A escritora chegou a estudar Psicologia, sob a alçada de Rank, a fim de aprofundar os seus conhecimentos. A influência da psicanálise na vida de Anais Nin ficará bem patente em todos os seus trabalhos a partir daí. O seu primeiro romance A Casa do Incesto, de 1936, é o exemplo do seu estilo surrealista e simbólico, inspirado nos estudos freudianos. Os mesmos condimentos podem ser encontrados em Espia na Casa do Amor, de 1954, sem dúvida,o seu livro mais famoso.

As consultas com os psicanalistas ajudam, também, a escritora a resolver os seus problemas com a figura paterna. Este homem, que se mantivera ausente quase toda a sua vida, criara profundos traumas no carácter de Anais. Conflitos que só conseguiria ultrapassar após uma relação incestuosa com o pai.

Joaquin Nin, então com 54 anos, entra de novo na vida de Anais em 1933, durante umas férias na Riviera Francesa. A evidência das semelhanças comportamentais e de carácter entre pai e filha era tão grande e manifesta que ambos começaram a sentir uma forte atracção um pelo outro. Joaquin sentia-se encantado pelo charme da sua filha. "Tu és a sintese de todas as mulheres que eu amei. Que pena seres minha filha", disse-lhe ele.

Mas isso nao o impediu de lhe pedir um beijo. No diário, a escritora descreveu a emoçãoque sentiu ao beijar o seu pai, manifestando o desejo que tinha em unir-se com ele. Os nove dias que se seguiram ao primeiro beijo seriam vividos em completa orgia obsessiva. Joaquin "era o homem mais viril" que Anais já conhecera e ela acreditava que finalmente tinha conseguido a aprovação do seu pai. "Eu amo-o. Não quero mais ninguém. Ele preenche a minha vida, os meus pensamentos, o meu sangue", escreveria no seu diário.

Mas, após ter confessado ao seu terapeuta e a Henry Miller a sua aventura incestuosa, os seus sentimentos mudaram. A excitação tinha acabado e Joaquin juntou-se a uma longa lista de amantes do passado. No seu diário, encontra-se, tambem, um comentário sobre outra sedução incestuosa, com o seu irmão Thorvald. Mas não há provas sobre a concretização desta união amorosa.

Anais Nin conseguiu manter, ao longo da sua vida, uma longa lista de amantes, tendo casos amorosos com homens de diversas idades, dos mais variados estratos sociais e culturais. Teve romances com jornalistas, como Gonzalo M're, escritores de renome, como Gore Vidal, e muitos homens com metade da sua idade, a que chamava "loucura erótica com lindos rapazes". Com os relatos das suas aventuras amorosas acabou por ganhar prestigio como escritora erótica.

Apesar do grande reconhecimento, o seu trabalho, ao princípio, foi mal interpretado e atacado como sendo de maus gosto. Muitos aconselharam a escritora a abandonar os seus diários. Mas quase todos eram unânimes em reconhecer que naquelas páginas encontrava-se alguma da melhor escrita de Anais Nin. Os vários volumes que constituem o diário da autora foram muitas vezes reescritos e trabalhados até se transformarem num autêntico romance. Em 1966 foi publicado o primeiro livro da colecção, sendo recebido entusiasticamente pela critica e pelo público. A mulher que estava "determinada a ser famosa" encontrava, finalmente, a atenção que tanto tinha desejado.

Mas Anais Nin continuava em busca da plenitude emocional e sexual. Em 1947, a escritora, ainda detentora de uma beleza singular, envolve-se em mais um romance polémico e que a leva à bigamia. Desta vez, o caso dá-se com Rupetr Pole, um homem que conheceu num elevador. Anais e Rupert apaixonaram-se quase à primeira vista, iniciando um caso ardente que se arrastou por muito tempo. A escritora pretendia viver com ele, porém não estava disposta a divorciar-se de Hugo. Rupert pensava no casamento, suplicando a Anais que aceitasse contrair matrimónio. Temendo perdê-lo por causa disso, Anais decidiu mentir, dizendo a Rupert que se tinha divorciado de Hugo.

A união legal acontece em 1955. A partir daqui, Anais Nin vê-se presa numa teia de mentiras, obrigada a dividir-se em duas, passando o tempo em viagens entre Los Angeles, onde vivia com Rupert, e Nova Iorque, onde era a esposa de Hugo. Ela chamava a este malabarismo de esposos "o seu trapézio". Chegou a elaborar uma caixa das mentiras, na qual inseria notas que a ajudavam a manter-se consciente das duas histórias separadas. "Não consigo ter um só amor", justificou-se mais tarde.

Após urn periodo de 13 anos de loucura e agitação constante, a mentira bizarra de Anais foi exposta. Incompreensivelmente, nenhum dos homens foi capaz de desistir da escritora, tendo concordado em viver aquela mentira e partilhar a mesma esposa. Apesar do acordo, ela passou os seus últimos anos com Rupert, escrevendo nos seus diários sobre o grande amor que ele nutria por ela.

A vida de extremos que levara, de abuso de sedativos e de abortos feitos em condições deploráveis, começava agora a causar os seus efeitos na saúde da escritora. A doença foi atacando Anais e aos 63 anos foi-lhe diagnosticado urn cancro na vagina, que se alastrou por todo o seu corpo. Nas suas ultimas citações, incluidas no seu diário, pode-se ler: "26 de Novembro de 1976. Fui ao hospital e morri. Morri entre lençóis limpos, medicamentos, acabei como um insecto." E apesar da quimioterapia intensiva e dois tratamentos penosos, o cancro venceu a escritora. Anais Nin morreu no dia 14 de Janeiro de 1977. No obituário que apareceu no New York Times, lia-se que a escritora tinha deixado viúvo Hugh Miller.O Los Angeles Times, relatava a viuvez de Rupert Pole. Até ao fim enganou os homens.


Anaïs Nin (Vida - Parte III)



Uma das primeiras paixões de Anais Nin foi o seu primo Eduardo Sanchez, um licenciado de Harvard que ela considerava ser a sua alma gémea e o seu alter ego. Desde tenra idade, a ligação entre os dois era tão óbvia que os pais de Eduardo, ao perceberem o que se passava entre os jovens, proibiram qualquer encontro entre os dois. Apesar disso,Anais e Eduardo continuaram a ver-se regularmente, numa ligação que acabaria por durar por muitos anos.

0 romance só terminou quando Eduardo começou a expressar dúvidas sobre a sua sexualidade. Anais sentiu-se chocada, mas prontamente decidiu que iria "curar" Eduardo do seu mal. Levou-o para um quarto de hotel onde fez amor com ele apaixonadamente. 0 "tratamento" não resultou e, pouco tempo depois, Eduardo assumia definitivamente a sua homossexualidade.

Uma intimidade, que foi quase consumada, aconteceu com John Erskine, um romancista famoso, crítico literário e musicólogo, professor de Literatura de Hugo, na Universidade de Columbia. O casal conheceu
Erskine nos edifícios da faculdade, onde se encontravam regularmente, tornando-se rapidamente grandes amigos. Os três costumavam sair regularmente, participando em festas e tertúlias animadas.

Anais só não avançou para a aventura porque, antes que pudesse fazer qualquer coisa, Hugo foi transferido para Paris. Estávamos em 1928 e Anais regressava à sua terra natal. Mas a história não ficou por aqui. Um ano depois, a escritora descobre que Erskine planeia uma visita a Paris e logo determina que o irá seduzir. Quando Erskine chega, finalmente, Anais derrete-se em charmes e delicadezas  Os primeiros encontros entre os dois, porém, não são mais do que meras permutas intelectuais, em que os dois conversam sobre os livros e a actualidade.

Num jantar formal, Anais descreve o ambiente entre eles como sendo "repleto de desejo", sentindo que estava prestes a explodir enquanto "os seus olhos me devoravam". Na manhã seguinte, Erskine foi visitar Anais, encontrando-a sozinha em casa. Os dois caíram instantanemente no sofá, beijando-se e acariciando-se. Erskine pediu-lhe, então, para ela tirar a roupa. Anais saiu da sala, voltando coberta apenas por um xaile espanhol. O professor deitou-se com ela, mas não foi capaz de lhe tocar. Retirou-se,dizendo "não posso fazer isto ao Hugo".

Anais nunca recuperou verdadeiramente desta rejeição.Terá sido a única vez que um homem lhe terá negado os prazeres físicos. Nesse Natal, ela passou os dias na cama, procurando calar a mágoa a ler A Woman in Love, de D.H. Lawrence. É precisamente o interesse por este escritor que a leva à publicação do seu primeiro trabalho: D. H. Lawrence, Um Estudo Amador (1932). Um ensaio que conduziu Anais ao seu mais famoso e tórrido affair,com o autor Henry Miller. O advogado que negociou o contrato de Anais com a editora, apresentou-a ao controverso escritor. Nesta altura, Miller era ainda bastante pobre, sem livros publicados, longe da consagração literária.

Anais e Henry partilhavam a mesma paixão por D. H. Lawrence. Foi preciso apenas um jantar a dois, para que ambos ficassem perdidos de amor. Assim que o conheceu, ela deslumbrou-se pelo seu carácter de vagabundo incorrigível. Adorava os círculos boémios em que Miller se movia, o seu estilo de vida e o desprezo pelas convenções. Mas mais do que tudo, Anais era fascinada pela sua misteriosa e insinuante esposa June.

Apesar de professar que amava Henry unicamente pela sua mente, Anais não resistiu a um envolvimento mais sério. Em breve, os dois escritores se tornariam amantes inseparáveis. Curiosamente, e ao contrário do que fazia com outros homens, os diários da escritora não dão detalhes sobre o primeiro encontro sexual que manteve com Henry, no Hotel Parisian. Anais escreveu apenas: "A ternura das suas mãos, a penetração inesperada ao meu núcleo, mas sem violência.Que estranho e gentil poder."

Os dois amantes nunca fizeram grande esforço para esconder a sua relação. 0 caso era do conhecimento público e até Hugo anunciava as suas entradas em casa com algum barulho, para os salvar do embaraço de serem apanhados em flagrante. Anais e Henry encontravam-se muitas vezes na casa da escritora, em aventuras sexuais que chegavam a durar dias a fio. "Tu és comida e bebida para mim", dizia Henry a Anais. Ambos se sentiam intrigados com o ilimitado apetite sexual que nutriam um pelo outro.

O romance de Anais com Henry continuou durante toda a década de 30. Nesse periodo, a escritora esteve também envolvida com outros homens, mas todos eles não passavam de conquistas momentâneas. Anais dizia que a sua receita para a felicidade era manter muitos amantes e, se possível, ter várias relações sexuais com diferentes homens no mesmo dia. Henry Miller, porém, tinha um lugar privilegiado na lista dos seus amores.

O romance entre os dois escritores não era apenas uma aventura sexual, sendo, acima de tudo, a grande inspiração literária de ambos. Crítica e competitiva, Anais encarava-a como uma relação simbólica:
"Preciso de um pai, um guia. Preciso da experiência de Henry, do seu conhecimento,da sua maturidade. Ele precisa da minha clarividência e da minha subtileza."

Na verdade, muitos dos melhores trabalhos de Nin e Miller foram produzidos durante os tempos do seu romance.Anais vivia completamente obcecada por Miller, tendo pedido a Hugo para financiar o seu amante, e as suas extravagâncias, enquanto os seus livros não obtivessem sucesso. 0 seu amor por Henry e, mais tarde,por June tornara-se numa fixação. Sentia-se presa ... e não queria fugir.

Sempre em busca de novas experiências sexuais, Anais deixa-se seduzir por June, com quem inicia a primeira de várias relações lésbicas.A escritora estava fascinada com as histórias de abusos de drogas e
bissexualidade da esposa do seu amante. Desejava ardentemente entender aquela mulher misteriosa que parecia invulnerável a tudo. Os três envolveram-se, então, num complexo triângulo amoroso, no qual Miller parecia ser o óbvio troféu mas que acabou por se transformar no grande perdedor do jogo amoroso.

Ao fim de um tempo,Anais e June focaram as suas energias, uma na outra, num romance selvático e carregado de um erotismo singular, inspirando Anais a escrever emotivas descrições nos seus diários. Numa das páginas, a escritora descreve como as duas mulheres faziam amor na cama de Henry enquanto ele dormia no quarto ao lado.

E é então que a tempestade começa. Henry descobre algumas cartas de amor obsessivas, escritas por Anais a June e toma consciência, finalmente, da extensão da relação entre a amante e a esposa. Numa delas, a escritora clama o seu amor por June e implora-lhe que se divorcie de Henry imediatamente, para que as duas possam ficar juntas livremente. 0 escritor fica chocado com a descoberta, sentindo-se trocado e cheio de ciúmes.

Confusa e perdida, Anais não sabe o que há-de fazer. Está dividida entre um amor intelectual por Miller e uma paixão obsessiva por June, não sendo capaz de optar. Para evitar desgostos e mágoas, acaba por decidir quebrar o bizarro triângulo, terminando a relação ambígua que mantinha com o casal. Anais compra dois bilhetes de avião e, literalmente, obriga Henry a partir para a Inglaterra e June a regressar aos Estados Unidos.

O escritor conseguiria voltar para junto de Anais, algum tempo depois. No entanto, a relação não iria resistir muito tempo. Um dos romances mais tórridos da literatura mundial haveria de terminar sem carinhos nem afectos.



Henry e June, de Philip Kaufman, 1990

Anaïs Nin (Vida - Parte II)


Anais Nin nasceu em Neuilly-sur-Seine, nos arredores de Paris, em Fevereiro de 1903. A menina foi a primeira de três filhos de um jovem casal que, embora fosse muito apaixonado, vivia em permanente conflito. O pai de Anais era um compositor de origem espanhola chamado Joaquin Nin. A mãe era Rosa Culmell, a filha preferida de um rico comerciante de açúcar. Logo após o matrimónio, Rosa e Joaquin ficaram a viver na capital francesa, onde cedo se revelaram as incompatibilidades existentes entre um e outro.

Os primeiros diários de Anais lembram uma vivência caseira tumultuosa, manchada pela imagem de Joaquin e pela evidência do casamento falhado dos pais. Dessas memórias de infância, salta à vista, sobretudo, a influência crucial da figura paterna na vida da escritora, uma marca que iria determinar a sua personalidade à medida que ia crescendo. Joaquin era um galã, um homem charmoso que preferia dedicar-se aos prazeres da conquista amorosa, esquecendo os deveres para com a sua família. Pelos escritos de Anais, percebe-se ainda que o pai era um homem bizarro de personalidade cruel. A menina era o alvo primordial da sua estranha forma de ser. Descrições vividas, recordam vários incidentes violentos, em que Joaquin espancava e molestava sexualmente a sua filha. A escritora lembra mesmo como o pai a costumava chamar de "rapariga pequena e feia" enquanto a fotografava no banho. Todas esta experiências iriam assombrar e fascinar a autora nos seus últimos anos de vida.

Quando Anais tinha 11 anos, Joaquin decidiu sair de casa, abandonando Rosa e seus filhos. No entanto, Joaquin não desapareceu assim tão facilmente e, mesmo à distância, continuava a exercer uma grande influência. Anais livrou-se da violência física mas não conseguiu escapar às pressões psicológicas do seu pai, que lhe escrevia regularmente pequenos bilhetes, convencendo-a de que ela o deveria amar, admirar e até imitar na maneira como manipulava os que estavam à sua volta. Tudo isto tentou a escritora fazer ao longo da sua vida.

Em 1914, assombrada pelas memórias do casamento falhado, Rosa decidiu que já não conseguia viver mais em Paris. Reuniu a sua família e embarcou para Nova Iorque para começar uma nova vida. Na viagem até aos Estados Unidos, Anais escreveu uma carta ao seu pai, um texto que nunca chegaria às mãos de Joaquin e que acabaria por ser a génese do 14º volume do diário de Anais Nin. Este diário, que por fim iria compreender 50 anos de vida e 35 mil páfinas de histórias, transformou-se numa detalhada descrição da vida da autora, um veículo para as suas ambições artísticas, a expressão dos seus desejos mais íntimos e laboratório para a busca psicológica incessante que foi a vida de Anais.

A escritora odiou a América desde o primeiro dia em que lá chegou. "É demasiado rápida", confidenciou ela mais tarde. Apesar disso,manteve-se sempre ligada aquele pais, assumindo-se como norte-americana, vivendo boa parte da sua vida entre Nova lorque e Los Angeles. Foi ai que Anais começou a escrever com mais empenho, dedicando-se nao só a preencher as páginas do seu diário mas, também, a elaborar contos e novelas. A sua escrita, ainda que muito imatura nesta época, revelava já uma personalidade perturbada e confusa, um carácter algo bizarro herdado do seu pai. Anais era uma criança solitaria que se rebelava contra a sua educação católica e os valores sociais conservadores que não conseguia entender.

Os tempos de escola foram para Anais anos de martírio. A rapariga detestava as aulas e os professores, não encontrando qualquer utilidade nas matérias que era obrigada a aprender. As suas únicas paixões eram a leitura e a escrita, interesses que nao conseguia explorar e desenvolver no liceu. Os textos de Anais eram severamente criticados pelos professores que a aconselhavam a parar de escrever e a dedicar--se a outra materia mais adequada ao seu reduzido talento. Finalmente, urn dia, não suportou mais as ofensas e decidiu abandonar a escola definitivamente, depois de urn professor a ter acusado de escrever de forma demasiado literária e estilizada.

Assim, aos 16 anos, Anais abandonava os estudos para iniciar a sua própria "auto-educação". Apesar das criticas desmoralizantes, a rapariga tinha já decidido ser escritora, tornando-se, a partir dessa altura,mestre literária de si mesma. Nesse sentido, começou a ler vorazmente todos os livros que encontrava, aprendendo novas formas de escrita e melhorando o seu estilo pessoal.

Em 1923, aos 20 anos, Anais casa com o banqueiro Hugh Parker Guiler, conhecido por todos como Hugo. Uma relaçãoque duraria muitos e longos anos, sempre balançando entre o entusiasmo ardente e indiferença. Artista por natureza, Hugo tinha desisitido da poesia pelos negócios do banco.

Anais abominava este mundo onde o marido se movimentava, mostrando-se sempre aborrecida com as conversas sobre as actividades bancárias. A escritora imaginara para si uma vida completamente diferente.
Apesar da frustração, Anais estava disposta a ser a esposa perfeita. Dessa forma e por amor a Hugo, criou uma imagem de casamento feliz e ficcional. Uma imagem que nao conseguia manter, porém, já que as incompatibilidades eram por demais evidentes.

Uma das razões da falência do matrimonio com Hugo era a pouca actividade sexual do casal. Tendo em conta as memórias do seu diário, percebe-se que a jovem Anais, apreensiva e inexperiente, tinha medo
de sexo, receando o contacto íntimo com o seu marido. Para agravar a situação, Hugo era sexualmente fóbico, sofrendo de falta de líbido. Como resultado disso, Anais só teve a sua noite de núpcias quase um
ano depois de ter casado com Hugo. As relações sexuais com o marido eram sempre experiências  dolorosas para Anais, pelo que o casal chegou a um ponto em que quase abdicou de qualquer actividade
mais íntima. A escritora cedo percebeu que o marido nunca a haveria de satisfazer sexualmente. "0 meu verdadeiro ser não é esposável, mas ousado, activo e faminto", escreveu a propósito Anais.

Para esquecer a frustração sexual que sentia, tentou refugiar-se na literatura, procurando dar um sentido intelectual aos seus desejos. No entanto, a vontade de descobrir e explorar a sua sexualidade falavam
mais alto e Anais ja não conseguia reprimir os seus anseios. Quando saía com Hugo, em reuniões e festas sociais, nao parava de olhar para os homens que a rodeavam. Quando chegava a casa, culpava-se por
se sentir atraída por outros homens. Que poderia ela fazer, se Hugo não correspondia aos seus mais íntimos desejos?

Eventualmente, acabou por aceitar e compreender a sua situação, tomando coragem para procurar, fora do lar, a experiência sexual que o marido nao lhe podia dar. Já sem medos ou culpas, Anais começou a namoriscar mesmo a frente de Hugo. Este parecia nao se importar, consciente dos problemas íntimos que afectavam o casal. À medida que foi ganhando confiança em si própria, Anais foi sendo mais atrevida
e indiscreta, desafiando os homens com a sua beleza e charme. O género masculino era como que um mistério que ela desejava desvendar. Eles, por seu lado, não conseguiam resistir àquela mulher,tão diferente e encantadora, avida de amor e sexo. Assim, nesta altura, Anais inicia varias relações amorosas que só podem ser catalogadas como conquistas de exploraçãosexual. Ao mesmo tempo, ela procurava a aceitação que não encontrava entre o círculo de amigos de Hugo, buscando incessantemente pelas suas almas gémeas.

Anais descrevia-se a si própria, nesta fase da sua vida, como "uma prostituta virgem", ansiando pela sua verdadeira realizaçãosexual. Ela queria que todos os homens se apaixonassem por ela, mas aborrecia-
se, rapidamente, quando eles não significavam nenhum desafio. Os seus casos amorosos eram mais que simples actos de sedução, eram troféus da sua sexualidade. E foram muitos nesta altura.

Anais nunca negou os seus sentimentos por Hugo, confessando sempre que o amava apesar dos desentendimentos. "Estamos unidos de uma forma tão bela. Mas não consigo ficar em casa. Tenho um desejo desesperado de conhecer a vida", escrevia a autora no seu diário. Para não magoar o marido, Anais fazia malabarismos extraordinários a fim de esconder os seus adultérios. Chegou a recorrer a um diário falso,
onde propositadamente omitia os detalhes da sua promiscuidade.  Hugo preferia fingir que ignorava as aventuras sexuais da mulher. Foi sempre urn homem totalmente dedicado e apaixonado por Anais,
mantendo-se casado com ela até ao dia da morte da escritora.

Anaïs Nin (Vida - Parte I)



Anais Nin será sempre conhecida pelas suas inúmeras conquistas e aventuras amorosas, pela sua atitude libertina em relação ao amor e, sobretudo, pela perversidade e promiscuidade sexual. Porém, através desta vida de excessos, esconde-se uma obra literária sem precedentes e uma mulher que sempre viveu como se fizesse, ela própria parte da ficção de um romance qualquer.

Anais Nin era um mistério feito de dualidades. Procurava a verdade feminina, mas vivia uma vida cheia de mentiras. Acusada de ser narcisista, o seu maior medo era a rejeição. Procurava o grande amor, porém, era incapaz de se entregar a um só homem. Viveu uma vida de extremos, de exageros e extravagâncias... até se tornar uma lenda.

Durante toda a sua vida, as revelações mais íntimas de Anais forma compiladas nas páginas dos seus diários. Um relato de memórias que a transformariam num símbolo maior da literatura contemporânea. Anais desejou toda a sua vida ser uma pioneira literária. Morreu antes de ser consagrada como a mais importante das escritoras eróticas. Mas, como as mulheres dos seus romances, Anais nunca conseguiu reconciliar-se consigo mesma. "Havia uma mulher que tinha cem rostos", escreveu ela em 1931. "Ela mostrava uma face a cada pessoa e, assim, foram precisos cem homens para escrever a sua biografia". Porém, ninguém pode ter a certeza se até mesmo as suas memórias pessoais revelam o verdadeiro rosto de Anais Nin.

I had a feeling that Pandora's box contained the mysteries of woman's sensuality, so different from man's and for which man's language was inadequate. The language of sex had yet to be invented. The language of the senses was yet to be explored. D.H. Lawrence began to give instinct a language, he tried to escape the clinical, the scientific, which only captures what the body feels.
Diários, vol. III

domingo, 5 de setembro de 2010

Indecências

A Origem do Mundo, 1866, de Gustave Courbet (!819 - 1877)


Em Mon Coeur mis à nu, Baudelaire conta:

"Todos os imbecis da burguesia, que pronunciam, sem cessar, as palavras imoral, imoralidade e moralidade na arte, bem como outros disparates semelhantes, trazem-me à memória Louise Villedieu, puta de cinco francos. Um dia, quando me acompanhava ao Louvre, onde nunca estivera antes, ela começou a corar, a esconder o rosto e, puxando-me a todo o instante a manga, perguntava-me, perante as numerosas estátuas e quadros imortais, como era possível exibir-se publicamente tais indecências."

Je t'aime, moi non plus

Em 1967 Gainsbourg escreveu "Je t'aime, moi non plus", uma canção explicitamente erótica, e gravou-a com Brigitte Bardot. Depois do final da sua relação, Bardot pediu-lhe que não editasse o single e  Gainsbourg respeitou o seu desejo (só em 1986, o público conheceria esta versão).
Porém, em 1969, Jane Birkin gravou a mesma canção em dueto com Gainsbourg, aparecendo no álbum "Jane Birkin Serge Gainsbourg".
O tema, ainda que condenado pela Igreja e censurado nalguns países, vendeu mais de um milhão de cópias.
Aqui ficam as duas versões.








quinta-feira, 2 de setembro de 2010

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