quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Manuel Maria Barbosa du Bocage


Bocage e as Ninfas, de Fernando Santos, 1929

Bem conhecido ficou este poeta portugês, que viveu entre 1765 e 1805, por ser "desordenado nos costumes". Boa parte da sua vida permanece um mistério. Não se sabe que estudos fez, embora se deduza da sua obra que estudou os clássicos e as mitologias grega e latina, que estudou francês e também latim. A identificação das mulheres que amou é duvidosa e discutível. A sua vida de boémia e aventuras levou-o diversas vezes à prisão.


A ROSA

No alto daquele cume
Plantei uma roseira
O vento no cume bate
A rosa no cume cheira.

Quando cai a chuva fina
Salpicos no cume caem
Formigas no cume entram
Abelhas do cume saem.

Quanto cai a chuva grossa
A água do cume desce
O barro do cume escorre
O mato no cume cresce.

Quando cessa a chuva
No cume volta a alegria
Pois torna a brilhar de novo
O sol que no cume ardia


François Boucher, La toilette intime, 1741

A ÁGUA

Meus senhores eu sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.

Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da rasca
tira o cheiro a bacalhau da lasca
que bebe o homem que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão

Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho

Meus senhores aqui está a água
que rega as rosas e os manjericos
que lava o bidé, lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber às fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um broche.

Anónimo, séc. XIX

Agora vós, fodões encarniçados

...Agora vós, fodões encarniçados,
Que julgais agradar às moças belas
Por terdes uns marzapos, que estirados
Vão pregar co´os focinhos nas canelas,
Conhecereis aqui, desenganados,
Que não são tais porrões do gosto delas;
Que lhes não pode, enfim, causar recreio
Aquele que passar de palmo e meio...


Peter Johann Nepomuk Geiger
Bojudo fradalhão de larga venta

Bojudo fradalhão de larga venta,
Abismo imundo de tabaco esturro,
Doutor na asneira, na ciência burro,
Com barba hirsuta, que no peito assenta:

No púlpito um domingo se apresenta;
Pregas nas grades espantoso murro;
E acalmado do povo o grão sussurro
O dique das asneiras arrebenta.


Quatro putas mofavam de seus brados,
Não querendo que gritasse contra as modas
Um pecador dos mais desaforados:

"Não (diz uma) tu padre não me engodas:
Sempre, me hé-de lembrar por meus pecados
A noite, em que me deste nove fodas"!


Thomas Rowlandson (1756-1827)


Esse disforme e rígido porraz

Esse disforme e rígido porraz
Do semblante me faz perder a cor;
E assombrado d'espanto e de terror
Dar mais de cinco passos para trás;

A espada do membrudo Ferrabraz
Decerto não metia mais horror:
Esse membro é capaz até de pôr
A amotinada Europa toda em paz

Creio que nas fodais recreações
Não te hão-de a rija máquina sofre
Os mais corridos, sórdidos cações:

De Vénus não desfrutas o prazer:
Que esse monstro, que alojas nos calções
É porra para mostrar, não de foder.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Cantigas d' escarnho e de maldizer


Da lírica medieval galego-portuguesa não constam unicamente cantigas de amor e de amigo. A sátira, presente no serventês provençal, chegado às nossas terras, influenciou os trovadores e jograis que, apoiando-se talvez numa tradição satírica autóctone transmitida oralmente e anterior à convivência com as formas occitânicas, criaram um novo modo de trobar: as cantigas d' escarnho e de maldizer.


Joan Garcia de Guilhade

Trovador português do século XIII, foi autor de poemas mordazes e célebres como "Ai dona fea, foste-vos queixar".
Nesta cantiga, Guilhade cobiça a mulher do jogral Martim, traduzindo bem, ao estilo popular, a ansiedade do homem que deseja a mulher possuída por outro.

Martin jograr, que gran cousa:
já sempre con vosco pousa
       vossa mulher!

Veedes m' andar morrendo,
e vós jazedes fodendo
       vossa mulher!

Do meu mal non vos doedes
e moir' eu, e vós fodedes
       vossa mulher!


Joan Soárez Coelho

Trovador português do século XIII, foi também cavaleiro da corte de D. Afonso III, participando na conquista do Algarve.
Nesta cantiga faz um jogo verbal a propósito do sobrenome duma soldadeira, Maria do Grave. O trovador esclarece o termo "grave" segundo os seus valores expressivos, que se resumem fundamentalmente a "difícil" e "custosa", os quais se ajustavam bem à soldadeira, pois era custosa (=cara), mas não difícil, como o autor declara ter já experimentado.

Maria do Grave, grav' é de saber
por que vos chaman Maria do Grave,
cá vós non sodes grave de foder,
e pero sodes de foder mui grave;
e quer', en gran conhocença, dizer:
sen leterad' ou trobador seer,
non pod' omen departir este "grave".

Mais eu sei ben trobar e ben leer
e quer' assi departir este "grave":
vós non sodes grav' en pedir aver,
por vosso con', e vós sodes grave,
a quen vos fode muito, de foder;
e por aquesto se dev' entender
por que vos chaman Maria do Grave.

E pois vos assi departi este "grave",
tenho-m' end' ora por mais trobador;
e ben vos juro, par Nostro Senhor,
que nunca eu achei tan grave
com' é Maria - e já o provei -
do Grave; nunca pois molher achei
que a mi fosse de foder tan grave.


Pero d' Ambroa

Trovador galego do século XIII, compôs fundamentalmente cantigas d' escarnho e maldizer. É referenciado em cantigas de outros trovadores e jograis pela sua piedosa intenção de querer ir até Jerusalém em peregrinação, mas mais não fez que ir até Saca dé Uen (Sacavém).
Nesta cantiga, Pero d' Ambroa, em face do preço exorbitante que uma soldadeira lhe pedia por sexo, roga-lhe, com malícia, que o venda a retalho, à semelhança do que se fazia com outros géneros, como o pão, as verças, a carne e o sal. O termo "fazer soldada" traduz a operação comercial de vender a miúdo.

Pedi eu o cono a ua molher,
e pediu-m' ela cen soldos enton;
e dixe-lh' eu logo: - Mui sen razon
me demandades; mais, se vos prouguer,
fazed' ora - e faredes melhor -
ua soldada polo meu amor
a de parte, ca non ei mais mester.

Fazen soldada do ouro, que val
mui mais ca o vosso cono, de pran;
fazen soldada de verça, de pan,
fazen soldada de carn' e de sal;
poren devedes do cono fazer
soldada, ca non á de falescer,
se retalhardes, quen vos compr' o al.

E podede-lo vender - eu o sei -
tod' a retalho, por que saberan
que retalhardes, e comprar-vos-an
todos d' el parte, como eu comprei.
Ainda vos d' al farei mui melhor:
se do embiigo avedes sabor,
contra o rabo vo-lo filharei.


Martim Soares

Trovador português do século XIII, frequentou a corte de Afonso X, rei de Leão e Castela. Em toda a sua produção poética deixou transparecer a sua veia irónica.
Esta cantiga terá sido dedicada a Pero Rodrigues Grongelete, uma vez que constava que a sua mulher lhe era infiel...


Pero Rodrigues, da vossa mulher,
não acrediteis no mal que vos digam.
Tenho eu a certeza que muito vos quer.
Quem tal não disser quer fazer intriga.
Sabei que outro dia quando eu a fodia,
enquanto gozava, pelo que dizia,
muito me mostrava que era vossa amiga.


Se vos deu o céu mulher tão leal,
que vos não agaste qualquer picardia,
pois mente quem dela vos for dizer mal.
Sabei que lhe ouvi jurar outro dia
que vos estimava mais do que a ninguém;
e para mostrar quanto vos quer bem,
fodendo comigo assim me dizia.


Esta outra cantiga terá sido dedicada a Afonso Eanes de Coton, em que Martim Soares, referindo-se na primeira pessoa, apontava os defeitos que afamavam o dito trovador...

 Meu Nosso Senhor, ando eu molestado
com todos os vícios que me foste dar.
Sou dos putanheiros o mais porfiado;
não menos me apraz os dados jogar;
e é grande o prazer que sinto em errar
por estas vielas, do mundo apartado.


Se de melhor vida fora venturoso,
lograra mais preço e mais honras ter.
Mas deste foder mais me apraz o gozo;
e o destas tabernas, e o deste beber.
Já que outra virtude não posso valer,
valha-me viver contente e viçoso.


Se não valho nada e não alimento
esperança de alguma virtude alcançar,
não quero perder este arreitamento,
tão pouco estas putas e este disputar.
Por outras fronteiras não quero eu andar,
trocando o meu viço por agastamento.


E muitos mais vícios acrescentaria,
que cúmplices são do meu desmerecer.
Nunca frequentei a tafularia (jogo),
sem ali desordens, distúrbios fazer;
e, cobardemente, ponho-me a mexer
buscando agasalho entre a putaria.


Quando consolado de muito gozar,
merendo, e, depois, ponho-me a caminho,
aí deixo as putas meus vícios gabar,
louvando-me as manhas e o descaminho.


Afonso Eanes de Coton

Trovador galego do século XIII, Afonso Eanes de Coton cultivou quase exclusivamente a sátira, na qual nos deixou treze cantigas que lhe são atribuídas e que são demonstrativas da vida de tabernário e frequentador de mulheres fáceis, como se costumava dizer. Esta primeira cantiga é dedicada a Marinha.

Marinha, o teu folgar
tenho eu por desacertado,
e ando maravilhado
de te não ver rebentar;
pois tapo com esta minha
boca, a tua boca, Marinha;
e com este nariz meu,
tapo eu, Marinha, o teu;
com as mãos te tapo as orelhas,
os olhos e as sobrancelhas,
tapo-te ao primeiro sono;
com a minha piça o teu cono;
e como o não faz nenhum,
com os colhões te tapo o cu.
E não rebentas, Marinha?

Esta outra cantiga é dedicada a Maria Mateu, a quem Afonso Eanes atribui preferências lésbicas, apesar de não estar excluída a hipótese de ter sido esta a mulher a quem se ligou.

Mari'Mateu, ir-me quer'eu d'aquén,
porque non poss'un cono baratar;
alguén que mi o daría non no ten,
e algũa que o ten non mi o quer dar.
Mari'Mateu, Mari'Mateu,
tan desejosa ch'es de cono com'eu!


E foi Deus ja de conos avondar
aquí outros, que o non han mester,
e ar feze-os muito desejar
a min e ti, pero que ch'es molher.
Mari'Mateu, Mari'Mateu,
tan desejosa ch'és de cono com'eu!

Nesta cantiga, o trovador acusa Maria Garcia de não o ter recompensado devidamente depois do mesmo lhe ter prestado o serviço de dormir com ela.
 
Ben me cuidei eu, María García,
en outro día, quando vos fodí,
que me non partiss'eu de vós assí
como me partí ja, mão vazía,
vel por serviço muito que vos fiz;
que me non destes, como x'homen diz,
sequer un soldo que ceass'un día.


Mais desta seerei eu escarmentado
de nunca foder ja outra tal molher,
se m'ant'algo na mão non poser,
ca non hei por que foda endoado;
e vós, se assí queredes foder,
sabedes como: ide-o fazer
con quen teverdes vistid'e calçado.


Ca me non vistides nen me calçades
nen ar sej'eu eno vosso casal,
nen havedes sobre min poder tal
por que vos foda, se me non pagades;
ante mui ben e máis vos én direi:
nulho medo, grado a Deus e a el-Rei,
non hei de força que me vós façades.

E, mia dona, quen pregunta non erra;
e vós, por Deus, mandade preguntar
polos naturaes deste logar
se foderan nunca en paz nen en guerra,
ergo se foi por alg'ou por amor.
Id'adubar vossa prol, ai, senhor,
c'havedes, grad'a Deus, renda na terra.

Esta última cantiga, extremamente atrevida, aponta uma abadessa de costumes relaxados, que o trovador, recém-casado, queria tomar como mestre na ciência do amor. A ela igualmente deviam recorrer todas as mulheres inexperientes.

Abadessa, oí dizer
que érades mui sabedor
de todo ben; e, por amor
de Deus, querede-vos doer
de min, que ogano casei,
que ben vos juro que non sei
mais que un asno de foder.

Ca me fazen en sabedor
de vós que avedes bon sen
de foder e de todo ben;
ensinade-me mais, senhor,
como foda, ca o non sei,
nen padre nen padre non ei
que m' ensin', e fiqu' i pastor.

E se eu ensinado vou
de vós, senhor, deste mester
de foda e foder souber
per vós, que me Deus aparou,
cada que per foder, direi
Pater Noster e enmentarei
a alma de quen m' ensinou

E per i podedes gaar,
mia senhor, o reino de Deus:
per ensinar os pobres seus
mais ca por outro jajuar,
e per ensinar a molher
coitada, que a vós veer,
senhor, que non souber ambrar.


Pero da Ponte
 
Pero da Ponte era galego, frequentou a corte de Afonso X e, provavelmente, a de Jaime I de Aragão.
A sua intimidade com Afonso de Coton, bem como as alusões frequentes que faz a hábitos de alcoolismo de Afonso X, dão-nos a entender que ele próprio seria frequentador destes mesmos hábitos e da vida boémia em geral.
Esta cantiga trata-se de uma provocação a D. Bernaldo por este se ter apaixonado, na sua velhice, por uma dita "mulher de vida fácil".

Dom Bernaldo, pois trazeis
convosco uma tal mulher,
a pior que conheceis,
que se o alguazil souber,
açoitá-la quererá.
A puta queixar-se-á
e vós, assanhar-vos-eis.


Mas vós que tudo entendeis,
quanto um bom segrel entende,
por que demónio viveis
com uma puta que se vende?
Porque, vede o que fará:
alguma vos pregará,
de que vergonha tereis.


E depois, o que fareis
se alguém a El-Rei contar
a mulher com quem viveis
e ele a quiser justiçar?
Se nem Deus lhe valerá,
muitos vos molestará,
pois valer-lhe não podeis.


E nem vos apercebeis
que se ela tiver um filho,
andando, como sabeis,
com o primeiro maltrapilho,
o que receio para já,
de vós se suspeitará
que no filho parte haveis.

Esta segunda cantiga de Maldizer relata uma história em que Pero da Ponte terá sido supostamente atacado por dois homossexuais que o tentaram violar, uma vez que ele desprezava todo e qualquer homossexual.

Porque mal digo, como homem fodilhão,
o mais que posso destes invertidos,
contra eles trovando e seus maridos,
quis um deles deixar-me em grande espanto:
topou comigo e sobraçando o manto
quis em mim espetar o caralhão.

Porque lhes faço versos e canções
nas quais, quanto mais posso, escarnecendo
vou desses putos que se vão fodendo,
um deles, que de noite me agarrou,
quis meter-me o caralho, mas errou
e lançou sobre mim os seus colhões.

domingo, 15 de agosto de 2010

Cântico dos Cânticos

 
O livro Cântico dos Cânticos, também chamado de Cantares , Cântico Superlativo, ou Cântico de Salomão, faz parte dos livros poéticos do Antigo Testamento. Representa, em hebraico, uma fórmula de superlativo; significa o mais belo dos cânticos, Cântico por Excelência ou o cântico maior.

Este livro é uma colecção de cantos populares de amor, usados talvez em festas de casamento, em que noivo e noiva são chamados de rei e rainha. Cântico dos Cânticos é um livro com oito capítulos. Apesar da sua brevidade, apresenta uma estrutura complexa. Diferentes personagens têm voz e, em muitas traduções da Bíblia, alternam a sua fala de modo inesperado, dificultando, assim, a sua leitura.

As três personagens principais do poema são: o noivo, isto é, "o Pacífico"; a noiva, mencionada como "Sulamita", a Pacificada; e as "filhas de Jerusalém" que servem como coro para ecoar os sentimentos da Sulamita, enfatizando seu amor e afeição pelo noivo.

A canção de amor divide-se em duas partes com mais ou menos o mesmo tamanho. O início do Amor (Cap.1-4) e seu Amadurecimento (cap.5-8).


Ct 1

Diálogo apaixonado

1 Cântico dos cânticos, que é de Salo­mão.

Ela

2 Que ele me beije com beijos da sua boca!
Melhores são as tuas carícias que o vinho,
3 ao olfacto são agradáveis os teus perfumes;
a tua fama é odor que se difunde.
Por isso te amam as donzelas.
4 Arrasta-me atrás de ti. Corra­mos!
Faça-me entrar o rei em seus apo­sentos.
Folgaremos e alegrar-nos-emos con­­tigo;
mais do que o vinho celebrare­mos teus amores.
Com razão elas te amam.


5 Sou morena, mas formosa,
mulheres de Jerusalém,
como as tendas de Quedar,
como os tecidos de Salomão.
6 Não estranheis eu ser morena:
foi o sol que me queimou.
Comigo se indignaram os filhos de minha mãe,
puseram-me de guarda às vinhas;
e a minha própria vinha não guar­dei.
7 Avisa-me tu, amado do meu cora­ção:
para onde levas o rebanho a apas­­centar?
Onde o recolhes ao meio-dia?
Que eu não tenha de vaguear oculta,
atrás dos rebanhos dos teus com­panheiros.

Ele

8Se não tens disso conhecimento,
ó mais bela das mulheres,
sai no encalço do rebanho
e apascenta as tuas cabrinhas
junto às cabanas dos pastores.

9A uma égua entre os carros do Faraó
eu te comparo, ó minha amiga.
10Formosas são as tuas faces en­tre os brincos,
e o teu pescoço com os colares!
11Para ti faremos arrecadas de ouro
com incrustações de prata.

Ela

12 Enquanto o rei está em seu divã,
o meu nardo dá o seu perfume.
13 Uma bolsinha de mirra é o meu amado para mim,
que repousa entre os meus seios;
14 um cacho de alfena é o meu amado para mim,
das vinhas de En-Guédi.

Ele

15 Ah! Como és bela, minha amiga!
Como são lindos os teus olhos de pomba!

Ela

16 Ah! Como é belo o meu amado!
E como é doce,
como é verdejante o nosso leito!
17 Cedros são as vigas da nossa casa,
e os ciprestes, o nosso tecto.

Ct 2


Vem o amado

1 Eu sou o narciso de Saron, eu sou o lírio dos vales.

Ele

2 Tal como um lírio entre os cardos
é a minha amada entre as jo­vens.

Ela

3 Tal como a macieira entre as ár­vores da floresta
é o meu amado entre os jovens.
Anseio sentar-me à sua sombra,
que o seu fruto é doce na minha boca.
4 Leve-me para a sala do banquete,
e se erga diante de mim a sua ban­deira de amor.
5 Sustentem-me com bolos de pas­sas,
fortaleçam-me com maçãs,
porque eu desfaleço de amor.
6 Por baixo da minha cabeça Ele põe a mão esquerda
e abraça-me a sua mão direita.
7 Eu vos conjuro, mulheres de Jeru­salém,
pelas gazelas ou pelas corças do monte:
não desperteis nem perturbeis
o meu amor, até que ele queira.

8 A voz de meu amado! Ei-lo que chega,
correndo pelos montes,
saltando sobre as colinas.
9 O meu amado é semelhante a um gamo
ou a um filhote de gazela.
Ei-lo que espera,
por detrás do nosso muro,
olhando pelas janelas,
espreitando pelas frinchas.
10 Fala o meu amado e diz-me:

Ele

Levanta-te! Anda, vem daí,
ó minha bela amada!
11 Eis que o Inverno já passou,
a chuva parou e foi-se embora;
12 despontam as flores na terra,
chegou o tempo das canções,
e a voz da rola
já se ouve na nossa terra;
13 a figueira faz brotar os seus figos
e as vinhas floridas exalam per­fume.
Levanta-te! Anda, vem daí,
ó minha bela amada!
14 Minha pomba, nas fendas do ro­chedo,
no escondido dos penhascos,
deixa-me ver o teu rosto,
deixa-me ouvir a tua voz.
Pois a tua voz é doce
e o teu rosto, encantador.

15 Agarrai-nos as raposas,
essas raposas pequenas
que devastam as vinhas,
as nossas vinhas já floridas.

Ela

16 O meu amado é para mim e eu para ele,
ele é o pastor entre os lírios,
17 até que rebente o dia
e as sombras desapareçam.
Volta, meu amado, e sê como um gamo
ou um filhote de gazela
pelas quebradas dos montes.

Ct 3



Sonhos de amor

Ela

1 No meu leito, toda a noite,
procurei aquele que o meu cora­ção ama;
procurei-o e não o encontrei.
2 Vou levantar-me e dar voltas pela cidade:
pelas praças e pelas ruas, pro­cu­ra­rei
aquele que o meu coração ama.
Procurei-o e não o encontrei.
3 Encontraram-me os guardas
que fazem ronda pela cidade:
«Vistes aquele que o meu coração ama?»
4 Mal me apartei deles, logo en­con­trei
aquele que o meu coração ama.
Abracei-o e não o largarei
até fazê-lo entrar na casa de mi­nha mãe,
no quarto daquela que me gerou.

5 Eu vos conjuro, mulheres de Jeru­salém,
pelas gazelas ou pelas corças do campo:
não desperteis nem perturbeis
o meu amor, até que ele queira.

6 Que é isto que sobe do deserto
como colunas de fumo,
exalando aroma de mirra e in­censo
e todos os perfumes dos merca­do­res?
7 Eis a sua liteira, a de Salomão!
Sessenta soldados a escoltam,
dos mais briosos de Israel,
8 todos cingidos de espada,
experimentados no combate.
Cada um tem à cintura a sua es­pada,
sem temor dos perigos da noite.
9 Um dossel fez para si o rei,
Salomão, com madeiras do Lí­bano:
10 fez de prata os seus pilares
e o encosto, de ouro;
o seu assento é de púrpura,
o seu interior, incrustado com amor
pelas mulheres de Jerusalém.
11 Saí, mulheres de Sião, e admi­rai
o rei Salomão com o diadema
com que o coroou sua mãe
no dia do seu casamento,
no dia de festa do seu coração.

Ct 4


Belezas da amada

Ele

1 Ah! Como és bela, minha amiga!
Como estás linda! Teus olhos são pombas,
por detrás do teu véu.
O teu cabelo é como um rebanho de cabras
que descem do monte Guilead;
2 os teus dentes são um rebanho de ovelhas,
a subir do banho, tosquiadas:
todas elas deram gémeos
e nenhuma ficou sem filhos.
3 Como fita escarlate são teus lá­bios
e o teu falar é encantador;
as tuas faces são metades de romã,
por detrás do teu véu.
4 O teu pescoço é como a torre de David
erguida para troféus:
dela pendem mil escudos,
tudo broquéis dos heróis.
5 Os teus dois seios são dois fi­lhotes
gémeos de uma gazela
que se apascentam entre os lírios,
6 antes que rebente o dia
e as sombras desapareçam.
Quero ir ao monte da mirra
e à colina do incenso.
7 Toda bela és tu, ó minha amada,
e em ti defeito não há.
8 Vem do Líbano, esposa,
vem do Líbano, aproxima-te.
Desce do cimo de Amaná,
do cume de Senir e do Hermon,
dos esconderijos dos leões,
das tocas dos leopardos.

9 Roubaste-me o coração, minha ir­mã e minha noiva,
roubaste-me o coração com um dos teus olhares,
com uma só conta do teu colar.
10 Como são doces as tuas carí­cias, minha irmã e noiva!
Muito melhores que vinho são as tuas carícias;
mais forte que todos os odores
é a fragrância dos teus perfumes.
11 Os teus lábios destilam doçura, ó minha noiva;
há mel e leite sob a tua língua,
e o aroma dos teus vestidos
é como o aroma do Líbano.

12 És um jardim fechado, minha ir­mã e minha esposa,
um jardim fechado, uma fonte se­­lada.
13 Os teus rebentos são um pomar de romãzeiras
com frutos deliciosos,
com alfenas e nardos,
14 nardo e açafrão,
cálamo e canela,
com toda a espécie de árvores de incenso,
mirra e aloés,
com todos os bálsamos escolhi­dos.
15 És fonte de jardim, nascente de água viva
que jorra desde o Líbano.

Ela

16 Levanta-te, vento norte;
vem, vento do sul;
vem soprar no meu jardim.
Que se espalhem os seus perfu­mes.
O meu amado entrará no seu jar­dim
e comerá os seus frutos delicio­sos.

Ct 5



Procurar o amado

Ele

1 Entrei no meu jardim, minha ir­mã e minha esposa,
colhi a minha mirra e o meu bál­samo,
do meu favo de mel,
bebi o meu vinho e o meu leite.
Comei, ó companheiros,
bebei e embriagai-vos, ó bem ama­­­dos!

Ela

2 Eu dormia, mas de coração des­perto.
Chamam! É a voz do meu amado, batendo à porta:

Ele

Abre, minha irmã e amiga, pom­ba incomparável!
Tenho a cabeça coberta de orva­lho,
e os meus cabelos, das gotas da noite.

Ela

3 Já despi a minha túnica.
Vou tornar-me a vestir?
Já lavei os meus pés.
Vou sujá-los de novo?
4 Meu amado passou a sua mão pela fresta
e as minhas entranhas estreme­ce­ram por ele.
5 Levantei-me para abrir ao meu amado;
as minhas mãos gotejavam mirra,
os meus dedos eram mirra escor­rendo
nos trincos da fechadura.
6 Fui abrir ao meu amado
e o meu amado já tinha desa­pa­recido.
Fora de mim, corro atrás das suas palavras;
procuro e não o encontro,
chamo e não me responde.
7 Encontram-me os guardas
que fazem a ronda na cidade,
espancam-me, ferem-me:
arrancam-me o véu que me cobre
os guardas das muralhas.
8 Eu vos conjuro, mulheres de Jeru­salém:
se encontrardes o meu amado,
sabeis o que dizer-lhe?
Que eu desfaleço de amor.

Elas

9 Que é o teu amado mais do que um amado,
ó mais bela das mulheres?
Que é o teu amado mais do que um amado,
para assim nos conjurares?

Ela

10 O meu amado é alvo e rosado,
distingue-se entre dez mil;
11 a sua cabeça é de ouro maciço;
são cachos de palmeira os seus cabelos,
negros como o corvo;
12 os seus olhos são como pombas,
nos baixios das águas,
banhadas em leite,
pousadas no ribeiro.
13 As suas faces são canteiros de bálsamo,
onde crescem plantas perfumadas;
os seus lábios são lírios,
gotejam mirra que se expande;
14 os seus braços são ceptros de ouro,
engastados com pedras de Társis;
o seu ventre é marfim polido,
cravejado de safiras;
15 as suas pernas são pilares de ala­bastro,
assentes em bases de ouro fino;
o seu aspecto é como o do Líbano,
um jovem esbelto como os cedros;
16 a sua boca é só doçura
e todo ele é delicioso.
Este é o meu amado; este, o meu amigo,
mulheres de Jerusalém.

Ct 6


Novo retrato da amada

Elas

1 Aonde foi o teu amado,
ó mais bela das mulheres?
Aonde foi o teu amado?
E nós o buscaremos contigo.

Ela

2 O meu amado desceu ao seu jar­dim,
ao canteiro dos aromas,
para apascentar nos jardins
e para colher lírios.
3 Eu sou para o meu amado e o meu amado é para mim,
ele é o pastor entre os lírios.

Ele

4 Tu és bela, minha amada, como Tirça,
esplêndida como Jerusalém;
és terrível como as coisas gran­diosas.
5 Afasta de mim os teus olhos,
os olhos que me enlouquecem.
A tua cabeleira é um rebanho de cabras
que descem de Guilead;
6 os teus dentes são um rebanho de ovelhas
a subir do banho, tosquiadas:
todas elas deram gémeos
e nenhuma ficou sem filhos;
7 as tuas faces são metades de romã,
por detrás do teu véu.
8 Sessenta são as rainhas,
oitenta as concubinas
e as donzelas, sem conta.
9 Mas ela é única, minha pomba, minha perfeita;
ela é a única para a sua mãe,
a preferida daquela que a deu à luz.
Louvam-na as donzelas quando a vêem,
celebram-na rainhas e concubinas.

Elas

10 Quem é essa que desponta como a aurora,
bela como a Lua,
fulgurante como o Sol,
terrível como as coisas gran­dio­sas?

Ela

11 Desci ao jardim das nogueiras,
para admirar o vigor do vale,
para ver se as vides rebentavam,
se os cachos já se abriam.

12 Nem conheço o desejo que me ar­rasta
no carro com o meu príncipe.

Ct 7


A dança do amor

Amigos

1 Volta-te, volta-te, Sulamita!
Volta-te, volta-te, para te vermos!
Que vedes na Sulamita,
quando baila entre dois coros?

Ele

2 Quão formosos são teus pés
nas sandálias, ó princesa!
As curvas dos teus quadris
parecem colares, obra de mãos de artista.
3 O teu umbigo é uma taça re­donda.
Que não falte o vinho doce!
O teu ventre é monte de trigo,
todo cercado de lírios.
4 Os teus seios são dois filhotes
gémeos de uma gazela;
5 o teu pescoço, uma torre de mar­fim;
os teus olhos, as piscinas de Hes­bon,
junto às portas de Bat-Rabim;
o teu nariz é como a torre do Lí­bano,
de vigia, voltada para Damasco.
6 A tua cabeça ergue-se como o Car­melo
e os teus cabelos são como púr­pura;
trazem um rei cativo dos seus laços.
7 Como és bela, como és desejável,
meu amor, com tais delícias!
8 Esse teu porte é semelhante à palmeira,
os teus seios são os seus cachos.
9 Pensei: «Vou subir à palmeira,
vou colher dos seus frutos.»
Sejam os teus seios
como cachos de uvas,
e o hálito da tua boca, perfume de maçãs.
10 A tua boca bebe o melhor vinho!

Ela

Que ele escorra por sobre o meu amado,
molhando-lhe os lábios adorme­cidos.
11 Eu pertenço ao meu amado,
e o seu desejo impele-o para mim.
12 Anda, meu amado,
corramos ao campo,
passemos a noite sob os cedros;
13 madruguemos pelos vinhedos,
vejamos se as vides rebentam
e se abrem os seus botões,
e se brotam as romãzeiras.
Ali te darei as minhas carícias.
14 As mandrágoras exalam o seu per­­fume,
à nossa porta há toda a espécie de frutos,
frutos novos, frutos secos,
que eu guardei, meu amado, para ti.

Ct 8


Parábolas do amor

1 Quem dera fosses meu irmão, amamentado aos seios da minha mãe!
Ao encontrar-te na rua beijar-te-ia,
sem censura de ninguém.
2 Eu te levaria para casa de minha mãe
e tu me ensinarias;
dar-te-ia a beber do vinho perfu­mado,
do mosto das minhas romãs.
3 Com a sua mão esquerda debaixo da minha cabeça,
a sua direita me abraça.
4 Eu vos conjuro, mulheres de Jeru­salém;
não desperteis nem perturbeis
o meu amor, até que ele queira.

Elas

5 Quem é essa que sobe do deserto,
encostada ao seu amado?

Ela

Sob a macieira te despertei,
lá onde a tua mãe sentiu as dores,
onde sentiu as dores a que te deu à luz.
6 Grava-me como selo em teu co­ração,
como selo no teu braço,
porque forte como a morte é o amor,
implacável como o abismo é a pai­xão;
os seus ardores são chamas de fogo,
são labaredas divinas.
7 Nem as águas caudalosas conse­guirão
apagar o fogo do amor,
nem as torrentes o podem submer­gir.
Se alguém desse toda a riqueza de sua casa
para comprar o amor,
seria ainda tratado com des­prezo.

Irmãos

8 Temos uma irmã pequenina;
ela ainda não tem seios.
Que faremos da nossa irmã,
quando vierem falar nela?
9 Se ela é uma muralha,
nela faremos ameias de prata;
se é uma porta,
reforçá-la-emos com traves de cedro.

Ela

10 Sim, eu sou uma muralha
e os meus seios são torres.
Por isso, a seus olhos me trans­formei
naquela que traz a paz.

Ele

11 Salomão tinha uma vinha
em Baal-Hamon.
Confiou a vinha a uns guardas:
cada um lhe dava pelo fruto mil siclos de prata.
12 A minha vinha é minha, fica co­migo;
para ti, Salomão, fiquem os mil siclos,
e mais duzentos para os que lhe guardam o fruto.
13 Estás sentada no meio dos jar­dins
e os companheiros escutam a tua voz.
Deixa-me também ouvir-te.

Ela

14 Corre, meu amado! Sê como um gamo
ou um filhote de gazela,
pelos montes perfumados.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

I Modi


I Modi, mais conhecidos pelo título em inglês Aretine's Attitudes, consistem numa série de desenhos que ilustram várias posições para relações heterossexuais. Foram desenhados por volta de 1524 por Giulio Romano (1499 - 1546), o assistente-chefe de Rafael, gravados por Marcantonio Raimondi (c. 1480? - 1534), responsável pela reprodução de muitas composições de Rafael, e acompanhados por uma série de poemas do incorrigível sátiro e propagandista Pietro Aretino (1492 - 1557). A colecção causou tumulto na Roma papal e os três "criminosos" tiveram de fugir.



Giulio Romano refugiou-se em Mântua, cujo duque reinante ficou muito contente em empregar um artista tão eminente. Menos afortunado, Raimondi foi preso durante algum tempo por um furioso Papa Clemente VII. Aretino fugiu para Veneza, e deste porto seguro pôde conduzir um negócio proveitoso de chantagem literária (oferecendo-se para suprimir as suas próprias sátiras em troca de adequadas somas em dinheiro).



As gravuras foram destruídas onde quer que os puritanos se encontrassem, apenas sobrevivendo até hoje uma crua série de cópias em madeira, só redescobertas em 1928 depois de ficarem na posse de Walter Toscanini, o coleccionador de livros, filho do grande maestro Arturo Toscanini.



Se bem que pouco prazer estético se possa obter destas cópias, elas demonstram o facto de Giulio Romano se ter baseado em precedentes gregos e romanos. Os seus desenhos estão em dívida para com os frescos eróticos por artistas clássicos que então começavam a ser descobertos em Roma por meio de escavações de palácios imperiais soterrados, tais como a Casa Dourada de Nero.



Os poemas de Aretino, por outro lado, mostram que as descrições e representações de actos sexuais continuaram a ser necessariamente vistos através do complexo prisma da tradição judaico-cristã.



Os I Modi são também uma sátira à corte papal e representam algumas das principais cortesãs da época com os seus amantes aristocratas, sendo cada uma delas identificável através de alguma especialidade sexual em particular. Os leitores da época teriam também sabido quem era quem.



Vamos Foder, Querido Coração
(Sonetti Lussuriosi 9)

"Vamos foder, querido amor; p'ra dentro e p'ra fora,
Pois temos a obrigação de foder por termos nascido,
E tal como eu anseio por cona, tu anelas por corno,
Porque, sem isso, o mundo não faria sentido.

Se depois da morte fosse decente ser possuído,
Eu diria: Vamos foder, vamos foder até morrer;
Uma vez lá, todos foderemos - tu, Adão, Eva, e eu -
Pois eles inventaram a morte e pensaram-na má.

É verdade que mesmo que aqueles dois primeiros ladrões
Nunca tivessem comido aquele fruto pérfido,
Nós ainda saberiamos como foder (mas não usar folhas).

Mas agora deixemo-nos de conversas; apontemos e disparemos
A picha direita ao coração, e façamos com que a alma
Seja arrebatada ao morrer em uníssono com a verga.

E poderia o vosso grande buraco
Receber como testemunhas estas bóias oscilantes
Para uma interna declaração das nossas alegrias ?"


Pietro Aretino




gravuras de Carracci

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

La Fornarina


La Fornarina é uma pintura de Rafael, feita entre 1518 e 1520. A mulher retratada é tradicionalmente identificada como a padeira (fornarina) Margherita Luti, a amante de Rafael, embora esta teoria seja questionada por alguns.

A jovem posa com um chapéu de estilo oriental e os seios nus. Faz o gesto de cobrir o seio esquerdo, iluminada por uma forte luz artificial vinda do exterior. No seu braço esquerdo tem uma estreita fita contendo a assinatura do pintor - RAPHAEL URBINAS.

Tem sido sugerido que a mão sobre o seio oculta um tumor na mama, disfarçado numa pose amorosa clássica. 

Aubrey Beardsley


Lysistrata

Aubrey Vincent Beardsley (1872 - 1898) foi um importante ilustrador inglês. O seu estilo, influenciado pelos pré-rafaelitas e pela estampa japonesa, enfatizava o grotesco, o decadente e o erótico.

Apesar da sua carreira ter terminado precocemente aos 26 anos, devido à tuberculose, Beardsley foi uma figura eminente no movimento esteta, juntamente com Oscar Wilde e James A. McNeill Whistler.

Famoso pelas suas ilustrações perversas e grotescamente eróticas, Beardsley buscou inspiração na shunga japonesa. As suas ilustrações eróticas mais famosas basearam-se em temas mitológicos, nomeadamente, as ilustrações para uma edição privada de Lysistrata, de Aristófanes.


Lysistrata

Beardsley também escreveu um conto erótico - Under the Hill. Contudo não chegou a concluí-lo.

Apesar de identificado com o círculo homossexual que incluia Oscar Wilde e outros estetas ingleses, algumas dúvidas persistem relativamente à sua sexualidade, sendo encarado até por muitos como assexual, devido à sua doença crónica e à total devoção ao seu trabalho.

A toilette de Lampito

As especulações sobre a sua sexualidade incluem também rumores sobre uma relação incestuosa com a sua irmã Mabel, que poderá ter engravidado do seu irmão e ter, posteriormente, abortado.

Beardsley converteu-se ao Catolicismo em 1897 e pediu ao seu editor, Leonard Smithers, que destruísse todas as cópias de Lysistrata e todos os seus desenhos obscenos.Smithers ignorou os desejos de Beardsley e continou a vender reproduções das suas obras e até falsificações.

Lysistrata

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Maurice

Maurice é um filme britânico de 1987, realizado por James Ivory, baseado no romance homónimo de E. M. Forster. Destacam-se os desempenhos de James Wilby, Hugh Grant e Rupert Graves.

Apesar de boas críticas, o filme não teve grande sucesso comercial; talvez devido à natureza polémica do tema - os conflitos de identidade sexual de um jovem inglês no final do século XIX.
O próprio Forster  determinou que o seu romance só fosse publicado postumamente.




segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A Pérola



The Pearl, A Magazine of Facetiae and Voluptuous Reading foi um periódico pornográfico mensal, publicado em Londres, por William Lazenby,  desde Julho de 1879 a Dezembro de 1880. Foram também publicados dois suplementos extra: Swivia: or the Briefless Barrister (1879) e Christmas Annual (1881).

Durante a sua existência, o periódico incluiu seis novelas serializadas: Sub-Umbra, Miss Coote's Confession, Lady Pokingham, La Rose D'Amour, My Grandmother's Tale e Flunkeyania, além de inúmeras paródias, anedotas e poesias obscenas.

Por detrás da fachada de respeitabilidade e repressão sexual,  a sociedade vitoriana revelava-se na sua busca desenfreada do prazer e da experimentação sexual. The Pearl  fornecia erotismo para todos os gostos.

Em nome da decência e da moral, as autoridades impuseram o fim da sua publicação. 

O poema seguinte foi retirado do 1º número, Julho de 1879.

A PROLOGUE
Spoke by Miss Bella de Lancy, on her retiring from the stage to open
a Fashionable Bawdy House
(Written by S. Johnson, LL.D.)

When cunt first triumphed (as the learned suppose)
O'er failing pricks, Immortal Dildo rose,
From fucks unnumbered, still erect he drew,
Exhausted cunts, and then demanded new;

Dame Nature saw him spurn her bounded reign,
And panting pricks toiled after him in vain;
The laxest folds, the deepest depths he filled;
The juicest drained; the thoughest hymens drilled.

The fair lay gasping with distended limbs,
And unremitting cockstands stormed their quims.
Then Frigging came, instructed from the school,
And scornde the aid of India-rubber tool.

With restless finger, fired the dormant blood,
Till Clitoris rose, sly, peeping thro' her hood.
Gently was worked this titillating art,
It broke no hymen, and scarce stretched the part;

Yet lured its votaries to a sudden doom,
And stamped Consumption's flush on Beauty's bloom..
Sweet Gamahuche found softer ways to fame,
It asked not Dildo's art, nor Frigging's flame.

Tongue, not prick, now probes the central hole,
And mouth, not cunt, becomes prick's destined goal.
It always found a sympathetic friend;
And pleased limp pricks, and those who could not spend,

No tedious wait, for laboured stand, delays
The hot and pouting cunt, which tongue allays.
The taste was luscious, tho' the smell was strong;
The fuck was easy, and would last so long;

Til wearied tongues found gamahuching cloy,
And pricks, and cunts, grew callous to the joy.
Then dulled by frigging, by mock pricks enlarged,
Her noble duties Cunt but ill discharged.

Her nymphae drooped, her devil's bite grew weak,
And twice two pricks might flounder in her creek;
Till all the edge was taken off the bliss,
And Cunt's sole occupation was to piss.

Forced from her former joys, with scoft and brunt,
She saw great Arsehole lay the ghost Cunt
Exulting buggers hailed the joyful day,
And piles and homerrids confirmed his sway.

But who lust's future fancies can explore,
And mark the whimsies that remain in store?
Perhaps it shall be deemed a lover's treat,
To suck the flowering quims of mares in heat;

Perhaps, where beauty held unequalled sway,
A Cochin fowl shall rival Mabel Grey;
Nobles be rained by the Hyaena's smile,
And Seals get short engagements from th'Argyle.

Hard is her lot, that here by Fortune placed,
Must watch the wild vicissitudes of taste;
Catch every whim, learn every bawdy trick,
And chase the new born bubbles of the prick;

Ah, let not Censure term our fate, our choice,
The Bawd but echoes back the public voice;
The Brothers laws, the Brothel's patrons give,
And those that live to please, must please to live;

Then purge these growing follies from your hearts,
And turn to female arms, and female arts;
'Tis yours ths night, to bid the reign begin,
Of all the good old-fashioned ways to sin;

Clean, wholesome girls, with lip, tongue, cunt, and hand,
Shall raise, keep up, put in, take down a stand;
Your bottoms shall by lily hands be bled,
And birches blossom under every bed.



sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Poor is the man whose pleasures depend on the permission of another



Madonna Louise Veronica Ciccone, conhecida simplesmente por Madonna , nasceu em Bay City, a 16 de Agosto de 1958.  Na sua longa carreira de cantora, produtora,, bailarina, actriz e empresária acumulou sucessos e polémicas. As suas posições sobre religião, política e sexo geraram sempre controvérsia.

Em 1992, Madonna lançou o livro SEX, um trabalho com fotografias de Steven Meisel, onde a cantora posa nua, sozinha ou com celebridades como Isabella Rossellini, Naomi Campbell e o rapper Vanilla Ice. As fotografias retratam fantasias eróticas da cantora.

Considerado o período mais escandaloso de sua carreira, ainda no mesmo ano, lança um novo disco, Erotica, acompanhado por um vídeo controverso devido ao seu conteúdo erótico.


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Polly Jean Harvey

Polly Jean Harvey (Dorset, 9 de Outubro de 1969) é uma cantora britânica, considerada uma das mais importantes artistas de sua geração e um dos ícones do rock da década de 90, influenciando vários artistas de sua época e posteriormente.

Nos primeiros tempos da sua carreira, PJ Harvey explorou temas instrínsecos à sexualidade feminina e ganhou notoriedade aos 21 anos ao retratar com maturidade e sinceridade temas complexos de forma crua e directa.



PJ Harvey - Rub 'Til It Bleeds (Live, 1992)


"Rub 'Til It Bleeds" (RID OF ME)

Speak, I'm listening
Baby, I'm your sweet thing
Believe what I'm saying
God's truth, I'm not lying

I lie steady
Rest your head on me
I'll smooth it nicely
Rub it better 'till it bleeds

And you'll believe me
Caught out again
I'm calling you weak
Getting even

And I, I was joking
Sweet babe, let me stroke it
Take, I'm giving
God's truth, I'm not lying

And you'll believe me
I, I, I'm calling you in
And I'll make it better
I'll rub 'till it bleeds

I'll rub it until it
I'll rub it until it, hey!
I'll rub it until it
I'll rub it until it

I'll rub it until it, hey!
I'll rub it until it
I'll rub it until it
I'll rub it until it

Snake


PJ Harvey - Snake - live in Chicago (Metro)


"Snake" (RID OF ME - 1993)

You snake
You crawled
Between
My legs
Said "Want
It all?
It's yours
You bet
I'll make
You queen
Of everything
No need
For God
No need
For him
Just take
My hand
You'll be
My bride
Just take
That fruit
Put it
Inside"
You snake
You dog
You fake
You liar
I've burned
my hands
I'm in
the fire

Awooooooh....oooooooohhhh

You salty dog
You filthy liar
My heart
It aches
I'm in
The fire
You snake (You snake)
I ate (I ate)
A true (A true)
Belief (Belief)
Good Lord (Good Lord)
That fruit's (That's fruit's)
Inside (Inside)
Of me (Of me)
Oh Adam (Oh Ad-)
Please (-am please)
You must (You must)
Believe (Believe)
That snake (That snake)
Put it (Put it)
In front (In front)
Of me (Of me)
That snake
Put it
In front
Of me
In front
Of me

Sheela Na Gig


PJ Harvey - Sheela Na Gig (acoustic)


I've been trying to show you over and over

Look at these, my child-bearing hips
Look at these, my ruby red ruby lips
Look at these, my work strong arms and
You've got to see my bottle full of charm
I lay it all at your feet
You turn around and say back to me
He said

"Sheela-Na-Gig, Sheela-Na-Gig, you exhibitionist!"
"Sheela-Na-Gig, Sheela-Na-Gig, you exhibitionist!"

Gonna wash that man right out of my hair
Just like the first time he said he didn't care
Gonna wash that man right out of my hair
Heard it before, no more
Gonna wash that man right out of my hair
Turn the corner, there's another one there
Gonna wash that man right out of my hair
Heard it before
He said

"Sheela-Na-Gig, Sheela-Na-Gig, you exhibitionist!"
"Sheela-Na-Gig, Sheela-Na-Gig, you exhibitionist!"
Put money in your idle hole
Put money in your idle hole

Gonna wash that man right out of my hair
Just like the first time he said he didn't care
Gonna wash that man right out of my hair
Heard it before, no more
Gonna take my hips to a man who cares
Turn the corner, there's another one there
Gonna take my hips to a man who cares
Heard it before
He said

"Sheela-Na-Gig, Sheela-Na-Gig, you exhibitionist!"
"Sheela-Na-Gig, Sheela-Na-Gig, you exhibitionist!"
Put money in your idle hole
Put money in your idle hole

He said, "Wash your breasts, I don't want to be unclean."
He said, "Please take those dirty pillows away from me."
He said, "Wash your breasts, I don't want to be unclean."
He said, "Please take those dirty pillows away from me."
He said, "Wash your breasts, I don't want to be unclean."
He said, "Please take those dirty pillows away from me."
He said, "Wash your breasts, I don't want to be unclean."
He said, "Please take those dirty pillows away from me."

50 Ft. Queenie


PJ Harvey - 50 Ft. Queenie (1998) Black Sessions

"50 Foot Queenie"(RID OF ME - 1993)

Hey I'm one big queen
No one can stop me
Red light red green
Sat back and watching
I'm your new one
Second to no one
No sweat I'm clean
Nothing can touch me

Tell you my name
F U and C K
50ft queenie
Force ten hurricane
Biggest woman
I could have ten sons
Ten gods ten queens
Ten foot and rising

Hey I'm the king of the world
You oughta hear my song
You come on and measure me
I'm twenty inches long

Glory, glory
Lay it all on me
50ft queenie
50 and rising
You bend over
Casanova
No sweat I'm clean
Nothing can touch me

Hey I'm the king of the world
You oughta hear my song
You come on and measure me
I'm twenty inches long

Hey I'm king of the world
You oughta hear my song
You come on and measure me
I'm thirty inches long

Hey I'm king of the world
You oughta hear my song
You come on and measure me
I'm forty inches long

Hey I'm king of the world
You oughta hear my song
You come on and measure me
I'm fifty inches long

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Fever

Nascida Norma Deloris Egstrom em 1920 em Jamestown, Dakota do Norte, Peggy Lee foi uma notável cantora de jazz. Peggy Lee intrigava a audiência com a sua voz sensualmente sugestiva (alluring purr of a voice).

Em Fever, um dos seus muitos sucessos, estabelece um padrão para o erotismo pop que ainda está para ser ultrapassado, não importa o quão explícitas e obscenas se tornem as canções pop dos nossos dias.


Peggy Lee - Fever (1958)

"A Arte de Amar" de Ovídeo

Publius Ovidius Naso, poeta romano, conhecido por Ovídio, nasceu em 43 a.C. em Sulmo, actual Sulmona, em Itália.
Já com mais de 60 anos, Ovídeo foi banido de Roma por causa de seu livro em verso, “A Arte de Amar”, considerada imoral pelo imperador Augusto. Morreu no ano 17.

Particularmente prezada durante a Antiguidade, lida e relida - sobretudo às escondidas - ao longo de quase toda a Idade Média, revalorizada com sempre renovado interesse a partir do Renascimento, a Arte de Amar de Ovídio não é apenas um dos monumentos perenes da literatura ocidental, mas também uma espécie de ponte ininterrupta, com sólidos pilares assentes no curso movediço de cada século, a atestar e a reforçar a continuidade dessa mesma literatura. Compósita mistura de Bíblia profana, de Manual de Bordo e de Livro de Cozinha para uso dos aprendizes do amor, a Arte de Amar tem vivido clandestinamente sob o alçado de escrevaninhas devotas, ocupado os mais secretos lugares no topo das estantes mais veneráveis, transitado de mão em mão sob a capa de sucessivas gerações de estudantes, pernoitado em celas de conventos e em celas de prisões, em castelos, em palácios e em estalagens, em boudoirs de cocottes e em tendas de campanha, em bordéis, em solares, em escolas, em beliches de transatlântico e em compartimentos de caminho de ferro …

(excerto do prefácio de David Mourão-Ferreira à edição Vega de Arte de Amar - tradução de Natália Correia e David Mourão-Ferreira)

Dos ensinamentos que me resta dar
já me sinto corar.
Mas diz-me a benévola Dione:
«o que causa vergonha, eis a nossa tarefa.»
Que cada uma de vós a fundo se conheça
e escolha a atitude
que mais em harmonia com o corpo lhe pareça.
A mesma posição a todas não convém.
Se o teu corpo é bonito deita-te sobre as costas
e é de costas que deves tua nudez mostrar,
se à perfeição do dorso nada tens a apontar.
Também tu cujo ventre Lucina encheu de rugas
faz como o Parto que no combate volta o dorso.
Milanion trazia sobre os ombros as pernas de Atalanta;
se as tuas mãos são belas do mesmo modo as mostrarás.
Se a mulher é pequena,
que tome a posição do cavaleiro.
Porque era altíssima
nunca a tebana mulher de Heitor
fez de cavalo em cima do marido.


Se procuras que o homem admire
da tua anca a linha inteira,
com a cabeça atirada para trás
na cama te ajoelha.


Se as tuas coxas têm da juventude o viço
e é impecável o teu peito
fique o homem direito
e obliquamente a ele estende-te no leito.


Não te envergonhes dos cabelos soltar como as Bacantes
e faz girar o colo emoldurado pela solta cabeleira.
Para os prazeres de Vénus praticar há mil maneiras.
Mas a mais repousante e menos complicada
é ficares sobre o flanco direito
meia deitada.
Sinta a mulher que os deleites de Vénus
ressoam nos abismos do seu ser;
e para os dois amantes
seja igual o prazer.
Nunca os doces murmúrios se interrompam
nem as palavras que escorrem quais carícias
e no meio das volúpias não se calem
aquelas que soam mais lascivas.


Mesmo se a natureza te negou
de Vénus as frementes sensações,
finge o doce prazer experimentar
com mentirosas inflexões.
Infeliz da mulher se o órgão de prazer permanece insensível
e que volúpias deve originar para ela e para o amante.
Mas cuidado não seja o fingimento
manifesto e visível.
Que a fingida expressão e os movimentos
que o teu amante enganam
seja aos teus olhos crível.
A volúpia, as palavras e a respiração
serão os instrumentos
com que fabricarás sua ilusão.
Impede-me o pudor de prosseguir.
Do teu órgão, mulher,
são secretos os meios de expressão.

excerto de Arte de Amar, de Ovídeo (tradução de Natália Correia e David Mourão-Ferreira)


Fresco Romano

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