sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Love Hurts


"Foolin" - Devendra Banhart (What Will We Be Starring - 2010)

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A Puta

Brassai

Quero conhecer a puta.
A puta da cidade. A única.
A fornecedora.
Na rua de Baixo
onde é proibido passar.

Onde o ar é vidro ardendo
e labaredas torram a língua
de quem disser: Eu quero
A puta
quero a puta quero a puta.

Ela arreganha dentes largos
de longe. Na mata do cabelo
se abre toda, chupante
boca de mina amanteigada
quente. A puta quente.

É preciso crescer esta noite inteira sem parar
de crescer e querer
a puta que não sabe
o gosto do desejo do menino
o gosto menino
que nem o menino
sabe, e quer saber, querendo a puta.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Pandora



No final da década de 20, Louise Brooks protagonizou A Caixa de Pandora. Neste filme, ela interpreta Lulu, uma jovem radiante que é inconscientemente responsável pela ruína de seus amantes e é vítima da exploração daqueles que se aproveitam de sua beleza e ingenuidade.

Brooks empresta à personagem Lulu uma grande carga de erotismo. Não o erotismo fabricado dos dias de hoje, em que as formas do corpo e as caras e bocas são responsáveis pela conotação sexual da obra.

Em A Caixa de Pandora, Brooks constrói uma jovem sedutora pela química resultante de um forte sex-appeal aliado a um ar infantil, quase inocente. Mas também é esta mistura explosiva que vai causar a destruição de Lulu.

A sua vida é marcada pela presença de Schigolch (Carl Goetz), um velho imoral que finge ser seu pai para explorá-la como prostituta e que tenta colocá-la no espetáculo de trapezismo do acrobata Rodrigo Quast (Carl Raschif). Entre os clientes de Lulu está Ludwig Schoen (Fritz Kortner), influente dono de jornal que está noivo da filha do Ministro do Interior. Preocupado com sua imagem, ele decide encerrar o caso com Lulu.

Schoen propõe ao seu filho, o dramaturgo Alwa (Franz Lederer), contratar a jovem para o seu espectáculo. Nos bastidores do show, Lulu e Schoen encontram-se e reiniciam o caso, no entanto, são flagrados por Alwa, que nutre uma paixão secreta pela jovem. A ruína de Schoen só não será maior se ele se casar com Lulu. É o que acontece. Mas, num acesso de ciúme, tenta provocar o suicídio de Lulu que, apavorada, atira nele matando-o.

No tribunal, ela é condenada a cinco anos de prisão, mas devido a um tumulto provocado por Schigolch, consegue fugir. Foge para o lar dos Schoen, onde irá encontrar Alwa. Apaixonado, ele decide protegê-la e fogem do país. No entanto, durante a fuga, um desconhecido reconhece a foragida e começa a chantagear Alwa exigindo dinheiro em troca do seu silêncio. Neste meio tempo, Schigolch e Rodrigo Quast reencontram-na e juntos seguem viagem. Desesperado, Alwa tenta conseguir dinheiro no póquer mas é desmascarado e expulso do navio.

Ao mesmo tempo, Quast exige que Lulu arranje dinheiro para o show de trapezismo, enquanto que o desconhecido chantagista vende a jovem a um egípcio. Lulu foge, junto com Alwa e Schigolch, para Londres. Lá, os três se vêem em extrema miséria e Lulu decide se prostituir. Consegue o seu primeiro cliente mal sabendo que caía nas garras de Jack, o Estripador.

A mulher, na figura de Lulu, é representada ora como agente da desagregação moral e social dos homens — a ruína de Schoen e Alwa —, ora como objeto de troca — como revela a atitude de Schigolch, Rodrigo Quast e do chantagista.

O próprio título do filme faz referência a um mito que, visto superficialmente pelo olhar contemporâneo, viciado no politicamente correto, denigre a imagem da mulher.

Segundo a mitologia grega, Zeus criou a primeira mulher, um ser sedutor. Essa figura chamada Pandora é, na realidade, uma armadilha que é enviada aos homens. Ela é responsável pela guarda de uma caixa (noutras versões, um vaso) e é aconselhada pelos deuses a nunca abri-la. No entanto, Pandora não segue o conselho e, ao levantar a tampa, liberta todos os males que se irão espalhar pelo mundo.

Este mito é retomado no julgamento de Lulu e serve de atenuante na imputação da pena. Segundo o juiz, Lulu, assim como Pandora, não tinha consciência das conseqüências de seus actos.

No entanto, será a consciência que irá selar definitivamente a decadência de Lulu. Buscar a prostituição será a primeira atitude tomada de sua própria vontade.

Pabst trata com subtileza rara um tema pesado como o deste filme. O erotismo acentuado pela personagem de Louise Brooks jamais cai na vulgaridade. Ele está presente no rosto inocente da actriz, nos gestos suaves e na interpretação carregada de ambigüidade.


A Caixa de Pandora, de G. W. Pabst, 1929

Lulu


Mary Louise Brooks nasceu em 1906 e foi uma das mais influentes actrizes norte-americanas de sua geração. Estrela de muitos filmes mudos, foi graças a Georg Wilhelm Pabst que conseguiu um dos seus melhores papéis,a heroína Lulu, no filme clássico A Caixa de Pandora, de 1929, adaptação da obra teatral de Frank Wedekind.
Em 1938 abandonou o cinema e dedicou-se à carreira de modelo e em 8 de agosto de 1985, Brooks foi encontrada morta, vítima de ataque cardíaco.


Louise Brooks & Rina Ketty - J'attendrai (1938)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

domingo, 26 de dezembro de 2010

Odalisca


Frederick Mulhaupt, Daughter of the Orient

A palavra odalisca deriva do turco odalik, que significa criada de quarto. O uso popular do termo atribui-lhe o sentido de amante, concubina ou uma mulher mantida por um homem rico.
No século XIX, as odaliscas faziam parte das fantasias eróticas masculinas, figurando até no movimento artístico conhecido como Orientalismo.

Jean Auguste Dominique Ingres, Odalisque, 1814

Colocada no nível mais baixo da hierarquia social de um harém, a odalisca nunca era vista pelo sultão, servindo antes as concubinas e as esposas. Não era uma concubina do harém, mas era-lhe possível tornar-se numa, caso revelasse talento para dançar, cantar ou fosse muito bela. Poderia então ser "treinada" para ascender a concubina. Se do encontro com o sultão resultasse o nascimento de um filho, tornar-se-ia então uma das suas mulheres.

Mariano Fortuny, Odalisque, 1861


Hermann Fenner-Behmer, Reclining Odalisque, 1857


Josef Straka, Odalisque with Parrot, 1902


Ignace Spiridon, Odalisca, 1889

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Natural


Sigur Rós - Gobbledigook

sábado, 18 de dezembro de 2010

Grandfather's girls


Álbum de fotos eróticas antigas. Ver aqui.


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Corpete

Brassai, Le Corset, 1933

sábado, 11 de dezembro de 2010

Erotismo no séc. XIX (3)


Rolla, de Henri Gervex, causou grande escândalo, em 1878, quando foi exposta pela primeira vez. O quadro foi considerado imoral pelo júri do Salão de Paris uma vez que representava uma prostituta nua, após ter tido sexo com o seu cliente.


domingo, 5 de dezembro de 2010

Let's Misbehave


Let's Misbehave - Cole Porter

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Prece

Man Ray, Prayer, 1930

domingo, 28 de novembro de 2010

Erotismo no séc. XIX (2)



Na Inglaterra vitoriana, ao lado dos clássicos - Dickens, Thackeray, George Eliot, Trollope, Thomas Hardy - encontramos uma série de narrativas eróticas com a descarada intenção de excitar. Entre estes livros encontram-se Venus in India, por "Captain Charles Devereau", e os anónimos First Training e The Adventures of Lady Harpur. O primeiro destes passa-se na altura da Primeira Guerra Afegã (1840). Os outros dois pertencem aos anos 80 seguintes. Em todas estas três titilantes obras, a caracterização enfatiza a ideia das mulheres como personalidades independentes, em busca da sua própria satisfação e desdenhosas da hipocrisia sexual. Não é esta a sociedade vitoriana - reprimida, educada e repelida pelo sexo - que nos é normalmente apresentada.

O grande clássico erótico da literatura inglesa deste período é My Secret Life, por "Walter" (c. 1888), um registo altamente pormenorizado em vários volumes da odisseia sexual de um homem. My Secret Life é apresentado como facto e não ficção, e apesar do enorme número de encontros que relata, esta pretensão parece convincente.

O livro apresenta um cândido e totalmente natural panorama da vida sexual vitoriana, tal como era vista pelos olhos de um homem de ilimitados apetites eróticos. Publicado originalmente numa edição muito limitada, não se tornou geralmente disponível, mesmo de forma clandestina, até princípios do século XX.

I went back to the fair and later on met outside it a very short girl, who seemed too respectable to be by herself and had her veil down. I spoke with her, found she was going my way, and walked with her. She knew my name, and where I lived. Two nights scrambling had not got me a poke, that I suppose made me bold enough to make advances to this modest, quiet girl; I stole a kiss, then another, then a hug, then a feel, and finally, with scarcely any hindrance, fucked her. We walked and talked when it was over, she would not tell me her name or address, nor give me a glimpse of her face; I fucked her again against our own garden-wall, insisted on knowing where she lived, said I would walk till I saw, and did walk with her for about an hour. She said, "If you walk about all night you shall never know where I live, but you may do it again if you like, or I will meet you to-morrow, but I dare not let you see where I go". I feared I could  not poke again, so stopped to piss. She modestly walked on a little; I frigged my prick until the steam was up, then in her well-moistened cunt consummated, and parted, promising to meet her the next night.
(...) The next night came, the unknown girl did not keep her appointment, and the following morning found I had the clap.
Walter, My Secret Life, cap.12


segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Ritual








Realizado em 1999 por Stanley Kubrick, Eyes Wide Shut é baseado no conto Traumnovelle, de Arthur Schnitzler. Este romance, datado de 1926, narra a viagem alucinatória de um jovem médico, na decadente Viena do início do século XX.
Entre cafés, ruas obscuras e bailes orgiásticos ocorre a aventura do Ego e dos instintos.

domingo, 21 de novembro de 2010

Dois Corpos

Lucas Cranach, Adão e Eva (séc.XV)

Corpo de santa

BALADA DE SANTA MARIA EGIPCÍACA

Santa Maria Egipcíaca seguia
Em peregrinação à terra do Senhor.

Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir.

Santa Maria Egipciaca chegou
À beira de um grande rio.
Era tão longe a outra margem!
E estava junto à ribanceira,
Num barco,
Um homem de olhar duro.

Santa Maria Egipciaca rogou:
- Leva-me ao outro lado.
Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.

O homem duro fitou-a sem dó.

Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir.

- Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.
Leva-me ao outro lado.
O homem duro escarneceu: - Não tens dinheiro,
Mulher, mas tens teu corpo. Dá-me teu corpo
[e vou levar-te.

E fêz um gesto. E a santa sorriu,
Na graça divina, ao gesto que ele fez.

Santa Maria Egipcíaca despiu
O manto, e entregou ao barqueiro
a santidade da sua nudez.

Manuel Bandeira


Hans Memling, Santa Maria do Egipto, séc. XV

sábado, 20 de novembro de 2010

Eternidade

"Já sei - a eternidade: é puro orgasmo.(...)
Hoje não estás nem sei onde estarás,
na total impossibilidade de gesto ou comunicação.
Não te vejo não te escuto não te aperto
mas tua boca está presente, adorando.
Adorando.
Nunca pensei ter entre as coxas um deus."

Carlos Drummond de Andrade, in O Amor Natural


Edward Hopper, Summer Interior, 1909

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
 
 

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A língua lambe

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais activa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,

entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

Carlos Drummond de Andrade


segunda-feira, 15 de novembro de 2010

La collectionneuse (2)

Pela sede, aprende-se a água. - Emily Dickinson

"La Collectioneuse", de Eric Rohmer, 1967.
 

La collectionneuse (1)

Ele andava à roda no seu desejo como o preso no cárcere. - Gustave Flaubert

La Collectioneuse, de Eric Rohmer, 1967.

sábado, 13 de novembro de 2010

Dos deleites carnais



O tríptico de Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias Terrenas (c. 1503-1510), descreve a história do Mundo a partir da criação, apresentando o Paraíso  e o Inferno nos painéis laterais. No centro aparece, curiosamente, a celebração dos prazeres da carne, com participantes desinibidos, sem sentimentos de culpa.


Entre o bem e o mal está a vida e o pecado e a obra expõe vividamente símbolos e actividades sexuais. As representações do pecado da luxúria acusam a efemeridade do prazer e do gozo.


Todas as frutas são uma clara alusão aos prazeres sexuais. Mas, ao mesmo tempo, as frutas simbolizam a fugacidade de tal prazer, pois, muito rapidamente, passam da frescura à putrefação.


Os pássaros de grandes proporções são também símbolos eróticos, nomeadamente, da lascívia.
 
 
Mais do que a censura, encontramos a ironia e o divertimento perante a loucura e os desvarios da vida humana.

domingo, 31 de outubro de 2010

La Marée


Contos Imorais, de Walerian Borowczyk, 1974

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O Sem Asas

Body # 4, de Alison Watt, 1996

a coisa sem asas
do homem...

e. e. cummings

O Sem Asas e O Alado

fotografia de Edward Lucie-Smith, 1997

'a coisa sem asas
do homem...

e. e. cummings

A maioria dos homens usa os caralhos
para duas coisas apenas fazer:
de pé estão para mijar
e deitados para foder.
O mundo está cheio de homens horizontais -
ou verticais -
e na verdade é tudo o mesmo mal.

Mas o teu caralho voa
por cima da terra,
fazendo sombras
nos corpos das mulheres,
fazendo sons loucos de ave
das suas bocas pequeninas,
fazendo música
e comida para o pensamento.
Não é uma coisa sem asas
de todo.

Podíamos chamar-lhe Pégaso -
se isso não nos fizesse pensar
em estações de serviço.
Ou podíamos chamar-lhe Ícaro -
se isso não nos fizesse pensar
em cair.

Mas, mesmo asim, desce e mergulha
através do céu como um planador,
à procura de um prado,
de um campo,
de um pântano batido pelo sol
de onde (disseste bem)
toda a vida começa.'

Erica Jong

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Satyricon - A viúva de Éfeso





Esta é a livre adaptação de Fellini da famosa peça de Petronius, que faz uma crónica da vida na Roma antiga. Encolpio (Martin Potter) e seu amigo Ascilto (Hiram Keller) disputam o afecto do jovem Gitone (Max Born). Quando Encolpio é rejeitado, inicia uma jornada onde encontra todo o tipos de personagens e acontecimentos, entre eles uma orgia e um desfile de prostitutas na Roma antiga. Apesar de baseado na sociedade da Roma antiga, Satyricon reflete também um momento de caos da sociedade da década de 60...

domingo, 17 de outubro de 2010

Incapacidade de amar


Casanova, de Fellini, 1976

Casanova



Giacomo Girolamo Casanova (1725 - 1798) foi um escritor e aventureiro italiano. Teve uma vida apaixonante, tendo sido inicialmente orientado na sua educação para a vida eclesiástica.

Uma aura mágica envolve toda a sua vida de debochado, libertino, coleccionador de mulheres, escroque e conquistador empedernido que percorria os bordéis de Londres todas as noites para ter relações com mais de 60 meretrizes.Conseguiu fugir das masmorras do Palácio Ducal de Veneza, com uma fuga rocambolesca pelos telhados do palácio, depois de estar prisioneiro durante 16 meses. Tinha sido preso em 1755, sob a acusação de levar uma vida dissoluta, de possuir livros proibidos e de fazer propaganda anti-religiosa.

Irrequieto e agitado por uma inquietação que nunca o abandonou em 73 anos de vida, este sedutor em movimento perpétuo passou grande parte da sua vida em viagens por Avinhão, Marselha, Florença, Roma, Praga, São Petersburgo, Istambul e Viena. Viajou por toda a Europa e conheceu todos as personagens relevantes da sua época. Personagem, por sua vez, característico do Iluminismo do século XVIII, epicúrio e racionalista, é recordado sobretudo pelas suas inumeráveis histórias galantes. 

Dedicou os seus últimos anos à escrita de um romance, Isocameron, e, especialmente, à redacção das suas memórias, História da minha vida, volumosas e escritas em francês, que constituem um fascinante testemunho da época.

Casanova e a religiosa, de Auguste Leroux

sábado, 16 de outubro de 2010

I'm Like a Tiger

If...


If, de Lindsay Anderson, 1968

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Erotismo no séc. XIX (1)



Ingres, Banho Turco

O século XIX viu evoluções no desenvolvimento da sensibilidade erótica ocidental. Poder-se-ia dizer que as atitudes de uma grande parte do público contemporâneo, apesar das profundas mudanças sociais e intelectuais, têm ainda as suas raízes no século XIX.

Eugene Deveria, Harém

Existem basicamente duas narrativas no erotismo deste período. Uma tem a ver com a fantasia romântica. Isto pode assumir várias facetas, mas uma das mais comuns é a do devaneio oriental, copiosamente representado na arte da época, desde o tempo de Ingres (1780-1867) e Delacroix (1798-1863) em diante, e certamente presente na ficção da época.

Jean Leon Gerôme, O Banho Turco

A outra, e fundamentalmente a mais importante, é o realismo - a representação da vida do dia-a-dia. Foram as pinturas e narrativas realistas eróticas que causaram uma grande perturbação às autoridades da época. Daí, por exemplo, o libelo fracassado do romance de Flaubert Madame Bovary (1857), e o tumulto ocasionado pelo Olympia de Manet (1865) e pelo seu Déjeuner sur l' herbe (1863).

Manet, Déjeuner sur l' herbe

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Eros e Thanatos

Em Querelle, a música cantada por Jeanne Moreau tem como letra a famosa frase de Oscar Wilde: "Todo o homem mata aquilo que ama".


Jeanne Moureau - Each man kills the thing he loves (Oscar Wilde)

Querelle

Querelle é um filme de 1982, realizado por Rainer Werner Fassbinder, e  baseado no romance "Querelle de Brest" (1947), de Jean Genet.

Querelle é um marinheiro que se envolve com homens e mulheres no porto de Brest (França). Em busca de prazer, fomenta desejos, envereda pela marginalidade e, finalmente, pela criminalidade, tornando-se ladrão e serial killer. Tenta, através da violência, sentir e dar prazer. Até que os seus próprios desejos o obrigam a abandonar a sua passividade e a demonstrar as suas emoções.

in Wikipedia

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Sim...Sim!

E.M. de Melo e Castro nasceu na Covilhã em 1932. Poeta, crítico e ensaísta, é teórico e praticante do experimentalismo poético e também um dos seus principais difusores em Portugal. É igualmente considerado um  introdutor da poesia concreta em Portugal (com o livro “Ideogramas”) e pioneiro da videopoesia (com Roda Lume). É autor de inúmeros livros, dentre os quais: Finitos mais Finitos; Literatura Portuguesa de Invenção; Visão Visual; O Fim Visual do Século XX; O Próprio Poético,de entre outros.

Poemas eróticos, pornô, caralhamas, conemas, de engate, execráveis, maneiristas, neobarrocos, subprodutos, desaforismos, escatológicos ou do esgoto, seguidos dos mui inducativos textículos de R’manceu = zero, tudo para gáudio geral.

 E.M. de Melo e Castro em  “Sim...Sim!”


mais difícil é falo
que falá-lo
mais difícil é língua
do que lua
mais difícil é dado
do que dá-lo
mais difícil vestida
do que nua
mais fácil é o aço
do que achá-la
mais fácil é dizê-la
que contê-la
mais fácil é mordê-la
que comê-la
mais fácil é aberta
do que certa
nem difícil nem fácil
nem aço nem licor
nem dito nem contacto
nem memória de cor
só mordido só tido
só moldado só duro
só molhada de escuro
só louca de sentido
fácil de falá-lo
difícil de contê-lo
o melhor é calá-lo
o melhor é fodê-lo

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Decameron

John William Waterhouse, Decameron

O Decameron  (vocábulo com origem no grego antigo: deca, "dez", hemeron, "dias", "jornadas") é uma colecção de cem novelas escritas por Giovanni Boccaccio entre 1348 e 1353. A obra é considerada um marco literário na ruptura entre a moral medieval, em que se valorizava o amor espiritual, e o início do realismo, sendo a natureza que dita a conduta do homem. 

O Decameron marca o período de transição cultural vivido na Europa no fim da Idade Média, após o advento da Peste Negra — é neste período de terror que a narrativa se passa. Dez jovens (sete moças e três rapazes) fogem das cidades tomadas pela pandemia que dizimava impiedosamente o continente europeu e recolhem-se numa casa de campo. Serão estes dez jovens que darão voz às cem novelas, reveladoras das idiossincrasias humanas.

Decameron: Os Enganos da Noite


(...) Ainda há pouco tempo, havia no campo arrabáldico do Mugnone um homenzinho em cuja casa os viajantes encontravam de comer e de beber por algum dinheiro. Era um homem pobre e a sua casa pequena. Apesar disso, sendo a necessidade grande, arranjava-se para nela acomodar não direi qualquer pessoa, mas, pelo menos, um cliente conhecido. Tinha uma bonita mulher e dois filhos: uma rapariga de quinze ou dezasseis anos, já boa para casar e muito atraente, e outro muito pequenino, de menos de um ano, ainda de mama.
   A rapariga tinha chamado sobre si a atenção de um gracioso e simpático fidalgo da cidade, que, no entusiasmo do seu desejo, ia com frequência ao Mugnone. Orgulhosa por inspirar uma paixão assim a um tal homem, a jovem esforçava-se por o reter na sua rede com olhares langorosos. A verdade, porém, é que ela própria se deixou prender. Em suma, um mútuo consentimento teria já várias vezes coroado esse amor se Pinuccio - era esse o nome do rapaz - não receasse para ambos a reprovação geral. No entanto, o amor era cada dia maior, e ele desejou vê-la de novo. Mas como conseguir hospedar-se em casa do pai? Pinuccio conhecia a disposição da casa e, uma vez lá dentro, gozaria, apesar da proximidade dos outros, a presença tão desejada da jovem. Logo que arquitectou o seu plano, quis experimentá-lo imediatamente.
   Para esse efeito fez-se acompanhar de um tal Adriano, seu amigo fiel e confidente dos seus amores. Um belo dia, já tarde, os jovens montaram em dois cavalos de tiro, carregaram-nos com duas malas, talvez cheias de palha, e saíram de Florença, seguindo o caminho dos estudantes. Já era noite quando as montadas chegaram ao Mugnone. Então, deram de rédeas aos cavalos, como se viessem da Romagna, dirigiram-se para as casas e bateram à porta do homenzinho. Muito amável com a clientela, este apressou-se a abrir.   - Como vês, tens de nos dar dormida esta noite - disse-lhe Pinuccio. Pensávamos chegar a tempo a Florença, mas calculámos mal as horas e só conseguimos chegar até tua casa.  
   - Bem sabes, Pinuccio - disse-lhe o homem -, que mau alojamento eu tenho para pessoas da vossa qualidade. Mas a verdade é que estão aqui e não têm tempo de ir para outro sítio. Alojo-os pois de boa vontade e como for possível.
   Os dois rapazes apearam-se, entraram no albergue, começaram por cuidar dos cavalos e depois cearam com o hospedeiro, das provisões de que se haviam cuidadosamente munido. O dono da casa só dispunha de um quarto exíguo e de três camas pequenas, que arrumara o melhor que pudera. Mas como estavam encostadas a uma das paredes e a terceira fora colocada ao longo da parede oposta, não havia muito espaço para andar à vontade.
   O homem fez a cama menos má para os dois companheiros e estes deitaram-se. Pouco depois, julgando-os adormecidos, deu uma das camas restantes à filha e deitou-se na outra com a mulher. Esta colocou, junto ao lugar onde ia dormir, o berço da criança. 
   Passado um momento, Pinuccio, que tinha observado tudo, levantou-se, pé ante pé, foi direito à cama onde a sua bela repousava e deitou-se a seu lado. Apesar do receio que sentia, esta fez-lhe um bom acolhimento e ambos ficaram a saborear o prazer que era o seu maior desejo.


Enquanto Pinuccio estava nos braços da sua amada, uma gata fez cair, por acaso, um objecto qualquer. A mãe ouviu o ruído e receando qualquer outra coisa, levantou-se e, às escuras, dirigiu-se à casa de onde lhe parecia ter vindo o som. Inocentemente, Adriano, que uma necessidade natural obrigara precisamente a levantar-se, saiu, tropeçou no berço que a dona da casa ali colocara e, como não podia passar sem o afastar, pegou-lhe, mudou-o de lugar e colocou-o junto à sua cama. Satisfeita a sua necessidade, voltou, e meteu-se na cama sem pensar mais no berço. 
   Após algumas investigações a mulher achou que o objecto caído não tinha grande importância. Não se preocupou com acender a luz para ver melhor, ralhou à gata, voltou ao quarto e dirigiu-se, tacteando, para a cama onde o marido dormia. Mas nada de berço. "Pobre de mim, que bonita coisa eu ia fazer! Deus do céu, ia direita à cama dos hóspedes!" Avançou alguns passos, encontrou o berço e, encontrando a cama que estava junta dele, deitou-se ao lado de Adriano que tomou pelo marido. Adriano, que ainda não voltara a ter sono, foi sensível à sua chegada. Sem dizer palavra, e com grande prazer da dona da casa, soube por mais de uma vez, provar-lhe o seu ardor. 

  
   Assim iam as coisas, quando Pinuccio receou que o sono o surpreendesse ao lado da amante. Como já tinha tido o prazer que tão avidamente desejava, soltou-se dos braços da jovem para voltar à sua cama. Chegou lá, mas, encontrando o berço, julgou tratar-se da cama do dono da casa. Avançou pois alguns passos e deitou-se ao lado do homem que acordou nesse momento. Pinuccio, que se julgava ao lado de Adriano, disse-lhe: 
   - Juro-te que nunca tive nos braços nada tão bom como a Niccolosa. Por Deus! Deu-me o maior prazer que um homem jamais teve de uma mulher. E sabes, desde que te deixei, estive mais de seis vezes no paraíso! 
   Ao ouvir tais palavras, tão pouco a seu gosto, o dono do albergue pensou: "Que diabo veio aqui fazer este imbecil?" Depois, a emoção fê-lo perder toda a prudência. 
   - Pinuccio - disse - o que me fizeste não tem classificação. E nem quero saber por que razão assim me ridicularizaste. Mas, com seiscentos diabos, hás-de pagar-mas! 
   Pinuccio não era um modelo de paciência. Ao reparar no engano, em vez de procurar remediar as coisas com elegância, respondeu: 
   - Que queres tu fazer-me pagar? Que poderias tu fazer-me? 
Entretanto, a senhora, que se julgava ao lado do marido, disse a Adriano: 
   - Deus do céu! Ouve os viajantes, estão ambos a discutir. Adriano pôs-se a rir: 
   - Deixa lá. Diabos os levem. Beberam demais ontem à noite. 
   A mulher, que esperava ouvir os clamores do marido, reconheceu a voz de Adriano. Compreendeu imediatamente o que lhe acontecera e com quem estava. Prudentemente e sem dizer palavra, levantou-se logo, pegou no berço da criança, e, apesar da profunda escuridão que reinava no quarto, teve o sangue frio suficiente de o levar para junto da cama da filha, onde se deitou. Então, como se o barulho que o marido fazia tivesse acabado de a acordar, interpelou-o e perguntou-lhe qual a razão da sua disputa com Pinuccio. Respondeu o homem: 
   - Não ouves o que ele pretende ter feito com a Niccolosa? 
   - Mente, juro-te - disse a mulher. - Ele não esteve deitado com a Niccolosa. Eu é que me deitei aqui e não tenho podido pregar olho. E tu és parvo, acreditando no que esse diz. Beberam tanto antes de se deitar que sonham a noite inteira com coisas dessas. Andam por todo o lado, perdem o controlo de si próprios e julgam ter realizado proezas. É pena que não tenham quebrado o pescoço. Mas o que está aí a fazer o Pinuccio? Porque não está na cama dele? 
   Adriano compreendeu que a mulher tinha a sabedoria de dissimular a sua vergonha e a da filha. 
   - Pinuccio - disse-lhe ele então - tenho-te dito centenas de vezes que não corras de cá para lá. Esse maldito costume de te levantares enquanto sonhas, depois de contar como se fossem verdadeiras todas as patranhas com que sonhaste, ainda acaba um dia por te sair caro. Volta para aqui. E que Deus não te dê uma boa noite! 
   Ao ouvir o que a mulher e Adriano diziam, o dono do albergue começou a acreditar que Pinuccio era na verdade sonâmbulo. Pegou-lhe então pelos ombros, sacudiu-o e gritou-lhe: 
   - Acorda, Pinuccio, volta para a tua cama. Mas Pinuccio, que compreendera o jogo de Adriano e da mãe de Niccolasa, pôs-se a fazer de sonâmbulo e a dizer parvoíces, que faziam o homem rir à gargalhada. Por fim, fingiu acordar e dirigiu-se a Adriano: 
   - Já é dia, para me estares a acordar? 
   Representando sempre, Pinuccio abriu os olhos pesados de sono, mas acabou por sair da cama e ir deitar-se junto de Adriano. 
   Quando amanheceu, o homem levantou-se e começou a rir de Pinuccio, troçando dele e dos seus sonhos. Brincadeira para aqui, brincadeira para ali, os dois jovens arranjaram-se assim como às suas montadas. Carregaram as bagagens, beberam com o dono do albergue, e a cavalo! 
   Voltaram a Florença tão divertidos com as peripécias da aventura como alegres com o seu desfecho. Daí a algum tempo, Pinuccio descobriu melhor maneira de se encontrar com Niccolosa. Esta última jurara à mãe, por todos os seus deuses, que Pinuccio tinha sonhado. E a boa senhora, ao recordar as suas justas com Adriano, acabava por pensar que fora ela a única pessoa a estar acordada.

"Decameron" (Oitava Jornada - Quarta Novela)"- tradução de Urbano Tavares Rodrigues



Desenhos de Giacinto Gaudenzi

Decameron: O Véu da Abadessa

(...) Sabei pois que havia na Lombardia um mosteiro cuja santa piedade assegurara a sua reputação. Isabetta, uma das religiosas que lá se encontravam então, era uma jovem de sangue nobre e de grande beleza. Um dos seus parentes foi um dia visitá-la à grade do parlatório. Acompanhava-o um rapaz de boa aparência, por quem Isabetta se apaixonou. A grande beleza da freira e o desejo que brilhava nos seus olhos inspiraram o mesmo ardor ao rapaz, e ambos sofreram durante algum tempo em silêncio essa paixão. Por fim, o jovem descobriu maneira de ver a freira secretamente e isso foi-lhes tão agradável que acharam maneira de repetir tais encontros.
    A intriga continuava assim. Uma religiosa, porém, surpreendeu uma noite o apaixonado no momento em que este se despedia da amante e participou a sua descoberta a outras freiras. A primeira ideia que lhes ocorreu foi comunicarem o que se passava à superiora, Usimbalda, que era, na opinião de todos quantos a conheciam, uma boa e santa criatura. Pensando melhor, acharam, porém, que seria preferível fazer com que a abadessa a surpreendesse com o amante e assim ela não pudesse negar o facto. Calaram-se pois e combinaram umas com as outras vigiarem-na alternadamente, a fim de a apanharem em flagrante delito. Isabetta, sem desconfiar de coisa alguma, mandou certa noite chamar o amante, facto de que as freiras que a vigiavam logo se deram conta. Quando o momento lhes pareceu propício, dividiram-se em dois grupos. Umas ficaram a vigiar a porta da cela, enquanto as outras correram ao quarto da abadessa e bateram à porta. Quando a superiora respondeu, as freiras insistiram:
   - Depressa, madre, depressa. Descobrimos um homem na cela de Isabetta.

Giacinto Gaudenzi
   Ora, nessa noite, a abadessa estava precisamente acompanhada por um padre que muitas vezes dava entrada no seu quarto metido dentro de uma arca. Ouvindo todo aquele barulho e receando que as freiras, com o entusiasmo, empurrassem a porta, saltou da cama e vestiu-se o melhor que pôde mesmo às escuras. Julgando, porém, que pegava no véu que as religiosas usam na fronte e a que chamam psaltério, pegou nas ceroulas do padre. A sua precipitação era tal que, sem dar por isso, as ajeitou na cabeça em vez do psaltério e saiu, batendo com a porta e perguntando:   - Onde está essa maldita de Deus? E seguiu as freiras que tanto ardiam em desejos de apanharem Isabetta em falta, que nem repararam que a abadessa trazia aquele estranho véu. Usimbalda chegou à porta da cela de Isabetta e, com a ajuda das irmãs, arrombou a porta. Lá dentro, as freiras encontraram os dois amantes deitados e abraçados. Estupefactos e sem saberem que atitude tomar, a freira e o jovem não se mexiam. Isabetta foi então agarrada pelas outras e conduzida ao capítulo. O rapaz, tendo ficado só, vestiu-se, e pôs-se à espera dos acontecimentos, decidido a vingar-se de todas as que lhe passassem por perto, se alguma fizesse mal a Isabetta, e depois de levar a amante para longe dali. 
A abadessa tomou o seu lugar no capítulo, em presença de todas as freiras que não olhavam senão para a culpada, e começou  por dizer a Isabetta as piores injúrias que jamais foram ditas a uma mulher, acusando-a de desacreditar a santidade, a honra e o bom nome do mosteiro, se tal escândalo viesse a transpirar lá fora. Às ameaças seguiram-se as injúrias. envergonhada e cheia de medo, a jovem parecia consciente da sua culpa e o seu silêncio começava a inspirar piedade às companheiras. A superiora continuava a falar, quando Isabetta levantou por fim os olhos e viu o véu da abadessa e os cordões que caíam de um e de outro lado. Percebeu logo do que se tratava e disse-lhe tranquilamente: - Madre Superiora, Deus vos tenha na sua Santa Guarda! Atai o vosso toucado e depois então dizei o que quereis. 
A abadessa, que não a entendia, disse: - Que toucado, miserável? Tens o topete de gracejar num momento destes? Achas que o teu crime dá vontade de rir? - Madre - disse Isabetta uma vez mais - peço-vos que ateis o vosso toucado. Depois dizei então o que quereis.    Várias freiras olharam então para a abadessa, e a boa senhora, que também levara as mãos à cabeça, compreendeu logo o motivo por que Isabetta falava assim. Reconhecendo o seu erro e vendo que as presentes o haviam também reconhecido, compreendeu que não podia mais ocultá-lo. Mudou então de tom e acabou por dizer que ninguém podia defender-se dos aguilhões da carne. Concluiu dizendo que cada qual devia ocultar o melhor possível o seu prazer, como até aí se tinha feito. A abadessa mandou pois soltar Isabetta e voltou para o leito, onde o padre estava à sua espera. Isabetta fez o mesmo com o amante, que ali voltou muitas vezes, apesar dos ciúmes que isso provocava. As freiras que não tinham apaixonados esforçaram-se logo por arranjar, o melhor que puderam, as suas intrigas secretas.

Decameron, Nona Jornada - Segunda Novela  (tradução de Urbano Tavares Rodrigues)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Bettie Page


Bettie Page (22 de abril de 1923 – 11 de dezembro de 2008) é considerada por muitos como a rainha das Pinups, famosa na década de 1950 pelas suas fotos eróticas. De brilhantes cabelos negros e franja, Bettie Page foi uma das primeiras Playmates, aparecendo na edição de Janeiro de 1955 da Playboy.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Elevador


Jean François Gaté

[...] Às vezes pasmo, Melanie, com a exactidão com que estes momentos me vêm à memória. Estou a ver o elevador, é como se tivesse sido ontem. O portão de grades trabalhadas em cobre, o guarda-vento de vidros foscos com umas flores lavradas que pareciam jarros do oriente. E os espelhos aos lados? E o banquinho de veludo na parede do fundo, tão virginal, tão romântico? Oh, era uma cestinha de arcanjos, aquele elevador, todo em ouros e brancos esmaltados. Mas o inesquecível era a máscara do diabo que havia no tecto a olhar cá para baixo! Assustava e enternecia. Tinha uns corninhos de fauno, saídos do conjunto da figura que era em relevo dourado e com uma mascarilha vermelha. Tantas minúcias, eu bem digo…Não te parece estranho?
E todavia todo se passou fora do tempo e do espaço! Tudo, ma chèrie, Tudo! Ainda mal tínhamos fechado a porta já o Gaston-Philippe se colava a mim a percorrer-me desvairadamente com as mãos. Contornava-me, cingia-me com um braço e procurava-me as coxas e as nádegas por baixo da roupa. Eu própria levantei o vestido, colando-me mais a ele, e imagina a surpresa que o tomou quando sentiu nos dedos a verdade do meu ventre!
Sim, minha Melanie, eu estava nua por baixo do vestido! Não me perguntes porquê, mas no bar, por um impulso inexplicável, tinha ido ao toilette com esse propósito. Um presságio? Só sei que estava feliz com o meu instinto, felicíssima. O assombro e o deslumbramento do Gaston-Philippe por aquela surpresa não tiveram limites e eu sentia isso através da sua mão que era grata e ardente. E que hábil, que mão! Que imaginativa e que extensa, Melanie! Penetrava com tais segredos que me levava para lá da ascensão do próprio elevador e logo me esgotava e me fazia afundar à medida que voltávamos a descer.
Impossível calcular as vezes que percorremos para baixo e para cima aqueles cinco andares. Uma verdadeira escalada do paraíso! Subíamos e mergulhávamos, e tornávamos a subir…a nossa viagem parecia não ter fim, pois o Gaston-Philippe era daqueles amantes afortunados nos quais l’amour fou é servido por um talento prático ajustado às circunstâncias e, assim, manobrava o manípulo do elevador no momento exacto em que ele se ia a deter.
Mas entoncededor ainda foi que dei por ele de joelhos, abraçado às minhas pernas e abrindo-me toda ao mesmo tempo, nem sei, com o rosto mergulhado nas minhas coxas! Então senti-me trespassada por algo muito vivo e voraz, por uma espessura revolvente e arguta que me descobria por dentro e me dilatava, sugando-me. E eram mais coisas, minha querida, os dentes percorrendo os pelos e os músculos , o calor do rosto contra o meu ventre, as mãos explorando-me as nádegas, tanta coisa!
Eu, de pé, uma perna em cima do ombro dele, via-me ao espelho e não me reconhecia. Esquecida, esquecida, liberta pelo espaço…»

 A Balada da Praia dos Cães, de José Cardoso Pires
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